Lula defenderá soberania, democracia e mundo sem hegemonia na ONU - Jamil Chade
Exclusivo: Lula defenderá soberania, democracia e mundo sem hegemonia na ONU
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva vai usar seu discurso de abertura na Assembleia Geral da ONU, em Nova York, para defender a soberania, a democracia e a garantia de um mundo multipolar. O brasileiro abre os trabalhos da cúpula no dia 22 de setembro. Instantes depois de Lula fazer seu discurso, será a vez de Donald Trump subir no púlpito das Nações Unidas.
A viagem para Nova York será a única ao exterior que Lula fará antes da eleição. O presidente, por exemplo, já anunciou que não irá à cúpula do Brics. A avaliação no governo é de que o palco da ONU é simbólico e pode ter um impacto positivo nas eleições no Brasil. Mesmo assim, a viagem será mais breve que em outros anos.
Lula deve chegar nos EUA no domingo, dia 20, ao final do dia. Na segunda-feira, estão previstas algumas reuniões e eventuais encontros bilaterais com outros chefes de estado. O discurso oficial, então, ocorre na terça-feira e o brasileiro retorna ao país no mesmo dia, para não dar a impressão de que está se descuidando da campanha.
Um dos focos do discurso será a defesa da soberania. Lula quer usar o conceito como base para alertar sobre a necessidade de que países adotem medidas de respeito mútuo, de não ingerência em assuntos domésticos e no respeito pela trilha que cada sociedade optar por tomar.
O objetivo, segundo fontes, é a de mandar uma mensagem contra qualquer potência que avalie que teria o direito de violar um dos princípios básicos das relações internacionais e da construção de uma ordem internacional mais justa.
O recado, porém, serve de alerta para qualquer ingerência que possa ocorrer entre o final de setembro e a eleição brasileira, em outubro. O governo aposta num reconhecimento amplo da comunidade internacional em relação aos resultados da eleição. Mas sabe que o risco de uma ação dos EUA é uma realidade. Ao falar de soberania, portanto, Lula estaria criando uma espécie de seguro de vida para a própria eleição brasileira.
Um segundo aspecto é a democracia. O petista vai insistir sobre a necessidade de que haja um consenso para frear movimentos autoritários que, com a disseminação de desinformação, ameaçam processos democráticos ao redor do mundo. Seu alerta vem num momento em que institutos de pesquisa, como o V-Dem, da Suécia, apontam para o maior retrocesso na saúde das democracias nos últimos 50 anos no mundo.
Lula quer ainda usar o exemplo brasileiro para sinalizar à comunidade internacional que o país lutou e venceu movimentos golpistas, usando sempre a Justiça e o estado de direito.
Um terceiro eixo do discurso será a rejeição às ambições de hegemonia unipolar por parte dos EUA. Sem citar os americanos, Lula vai defender o fortalecimento da ONU, dos organismos internacionais e uma ordem internacional baseada no direito internacional.
Para a diplomacia brasileira, é a manutenção do multilateralismo que servirá de maior proteção contra qualquer investida estrangeira ao país.
O temor do Brasil e de outros países em desenvolvimento é que a disputa entre China e os EUA conduza a uma asfixia do multilateralismo.
Cruzando fronteiras com refugiados, testemunhando crimes contra a humanidade, viajando com papas ou cobrindo cúpulas diplomáticas, Jamil Chade percorreu mais de 70 países. Com seu escritório na sede da ONU em Genebra, ele foi eleito o segundo jornalista mais admirado do Brasil em 2025. Chade foi indicado 4 vezes como finalista do prêmio Jabuti. Ele é embaixador do Instituto Adus, membro do conselho do Instituto Vladimir Herzog e foi um dos pesquisadores da Comissão Nacional da Verdade.
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