TRE-SC manda Meta preservar dados de perfis de Jorginho Mello sob suspeita de uso da máquina pública
Colunistas ICL- iclnoticias.
Amanda Miranda
TRE-SC manda Meta preservar dados de perfis de Jorginho Mello sob suspeita de uso da máquina pública
A suspeita da existência de um gabinete paralelo formado por servidores comissionados e movido por dinheiro público está sendo investigada como a engrenagem das redes pessoais do governador licenciado de Santa Catarina, Jorginho Mello. Dados do portal da transparência indicam que pelo menos três profissionais por trás de contas nas redes pessoais e no site particular do político estão vinculados direta ou indiretamente ao Governo do Estado.
A pedido da Coligação Santa Catarina com Lula e Contra o Extremismo (PDT/PSB/Federação Brasil da Esperança/Federação PSOL Rede), o Tribunal Regional Eleitoral de Santa Catarina intimou a Meta para preservar os dados do perfil do governador Jorginho Mello em uma ação de Produção Antecipada de Provas sob relatoria do Desembargador Eleitoral Márcio Schiefler Fontes.
O procedimento tem com pano de fundo a suspeita da coligação rival de que ao longo dos últimos anos o governador tenha se utilizado da estrutura pública para construir uma rede pessoal movida a dinheiro do orçamento estadual, com funcionários comissionados da Secretaria de Comunicação sendo os responsáveis formais pela conta do governador, com a gestão e o impulsionamento do perfil associado a Jorginho Mello.
Por enquanto, o TRE-SC negou pedidos de busca ampla ou de exibição imediata dos dados, mas ordenou a preservação de logs de acesso e de registros financeiros e de impulsionamento feitos na conta pessoal do governador ao longo deste ano.
Como o processo é uma Ação de Produção Antecipada de Provas, o relator esclareceu, na decisão, que a demanda junto à Meta é um procedimento autônomo para viabilizar o conhecimento prévio de fatos. Ele assinalou que a decisão não comporta “valoração aprofundada sobre o mérito, tampouco declaração acerca da ocorrência de ilícito”.
Ex-comissionado e sócio de contrato milionário
Um telefone cadastrado na Meta como sendo o responsável pela gestão do perfil de Jorginho Mello pertence a Igor Campos da Silva. Igor era assessor técnico da Secretaria de Comunicação antes de se tornar sócio administrador da Eldonita Inteligência Ltda, empresa que recebeu cerca de R$ 1 milhão em investimentos públicos desde 2023, via Secretaria de Comunicação, em contratos de prestação de serviços de publicidade.
A Eldonita se apresenta como uma agência de monitoramento de redes sociais e imprensa e de fortalecimento de presença online e offline, com tecnologia de ponta, análise humana, inteligência artificial e ciências sociais. No mês de agosto de 2026, segundo dados divulgados pela plataforma Zeeng, Jorginho Mello estava entre os 100 políticos mais influentes nas redes em todo o país.
Um dos posts impulsionados vinculado ao contato de Igor é o do governador rebatendo críticas sobre anúncio de uma grande obra em ano eleitoral, em junho de 2026. O projeto da rodovia Viamar, que deve ligar Joinville ao Contorno Viário da Grande Florianópolis, em paralelo à BR-101, foi um dos trunfos do governador na pré-campanha e recebeu duras críticas do seu principal oponente na direita, o candidato João Rodrigues (PSD), pelo “timing” eleitoreiro.
Além de Igor, um outro funcionário da Secom também está diretamente ligado a contas pessoais do governador. Eduardo Cordini Valente é lotado na pasta desde janeiro de 2023, quando Jorginho assumiu o governo, com salário de R$ 18.517,10.
Valente é o responsável pelo registro do domínio do site oficial do governador e também tem uma série de registros de atividades do PL, como fotógrafo. O nome do profissional aparece como beneficiário dos recursos diretos do PL em 2025, com um total de R$ 9 mil obtidos do fundo partidário. Em 2024, recebeu exatamente o mesmo valor.
Conselheira de trânsito e gestora de anúncios na Meta
Os anúncios de impulsionamento mais recentes da campanha de Jorginho Mello na conta pessoal do governador constam com o número telefônico de uma servidora com cargo em comissão como conselheira na secretária de Infraestrutura. Jacqueline Junges Nunes da Silva tem remuneração de R$ 4.236. Desde novembro de 2024 ela recebe pagamento de Jeton, remuneração por participação em reuniões de conselhos de administração, fiscal ou órgãos deliberativos.
Atos do governador Jorginho Mello de setembro de 2024 e de outubro de 2025 registrados em Diário Oficial a qualificam para membro da Junta Administrativa de Recursos de Infrações da Secretaria de Estado da Infraestrutura e Mobilidade de Santa Catarina como tendo “notório conhecimento em trânsito”.
Não há registros nos buscadores sobre a formação da servidora na área, apenas vinculações à administração pública e ao Partido Liberal. Sua imagem no aplicativo de mensagens WhatsApp consta com o nome e a logomarca do PL. Em 2025, ela também foi uma das principais beneficiárias do fundo partidário do PL em Santa Catarina, recebendo um total de R$ 104.392,43. No ano anterior, recebeu pouco mais de R$ 87 mil.
Um dos posts vinculados ao contato de Jacqueline está entre os que mais foram vistos na conta do governador nos últimos meses. Na postagem, com uso de Inteligência Artificial, Jorginho diz que Santa Catarina era um trem desgovernado quando ele assumiu e bateu recordes em obras e projetos. O governador aparece caracterizado como o personagem Homem Aranha.

Já a conta do Governo de Santa Catarina, que seria o órgão de comunicação oficial do governo, impulsiona conteúdos com outro número de telefone e com e-mail institucional de domínio gov.br. As postagens são diferentes daquelas utilizadas no perfil pessoal e nominal do governador, que possui cerca de 200 mil seguidores a mais.
O secretário de Comunicação recentemente licenciado para se dedicar à campanha, Bruno Oliveira, já se manifestou publicamente sobre a estratégia de promover as contas pessoais dos gestores quando era o responsável pela promoção de Topázio Neto, prefeito de Florianópolis, e o transformou em um fenômeno das redes, a ponto de ficar conhecido como prefeito tik toker. “Se ele chega numa campanha à reeleição e as pessoas não sabem quem é o prefeito, naturalmente as pessoas vão dizer ‘esse prefeito não fez nada. Se eu não sei quem é, é porque não fez nada”, disse, em 2024.
STJ já debateu uso de verbas públicas para a promoção pessoal
O pedido de produção antecipada de provas ao TRE tem o objetivo de criar ferramentas legais para preservar dados que podem ser perdidos, dificultando possíveis e eventuais penalizações à candidatura de Jorginho Mello.
No mérito, a Coligação “Santa Catarina com Lula e Contra o Extremismo” pretende demonstrar que o governador Jorginho Mello utilizou recursos, servidores e infraestrutura pública para gerir e promover seus perfis pessoais com impacto no seu projeto de reeleição em 2026, fazendo uso da máquina para se manter no poder. O pedido feito à justiça eleitoral busca obter informações antes que os registros digitais sejam apagados ou alterados.
Em 2025, um recurso especial do Superior Tribunal de Justiça considerou que o ex-governador de São Paulo, João Doria, pode ter incorrido neste mesmo problema. Ele teria divulgado imagens publicitárias de um programa em suas redes sociais ainda quando era prefeito, indicando que a contratação de uma campanha teria como objetivo a autopromoção.
O STJ entendeu que a verba aplicada em publicidade foi desproporcional, chegando a superar o valor aplicado na execução do programa de asfaltamento em determinado momento da gestão municipal.
Em Santa Catarina, um dos montantes aplicados pela Secretaria de Comunicação em propaganda já divulgados pela coluna também superou o seu objeto de divulgação. A Defesa Civil de Santa Catarina, em 2025, usou quase R$ 17 milhões em uma campanha sobre barragens e prevenção às cheias, valor quase dez vezes maior ao investido nas próprias barragens no mesmo ano. O Tribunal de Contas de Santa Catarina (TCE-SC) emitiu um alerta sobre o crescimento abrupto dos investimentos em publicidade da gestão.
A Lei nº 14.230 de 2021, que atualizou a legislação de improbidade administrativa, tem um inciso que veda a prática, no âmbito da administração pública e com recursos do erário, de ato de publicidade que promova inequívoco enaltecimento do agente público e personalização de atos, de programas, de obras, de serviços ou de campanhas dos órgãos públicos.
A coluna procurou a secretaria de Comunicação e os profissionais citados nessa reportagem, mas não obteve retorno até o fechamento do material. O espaço segue à disposição.
Formada pela UFSC, com mestrado em educação científica e doutorado em Jornalismo na mesma instituição. Tem pós doutorado na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. Servidora pública federal e ativista pelo direito à informação, tem se dedicado a monitorar mandatos extremistas bolsonaristas.
https://iclnoticias.com.br/tre-sc-manda-meta-preservar-dados-de-perfis-de-jorginho-mello-sob-suspeita-de-uso-da-maquina-publica/