‘População, de forma majoritária, condena o golpismo e apoia a punição’, diz Ricardo Cappelli
‘População, de forma majoritária, condena o golpismo e apoia a punição’, diz Ricardo Cappelli
Por Chico Alves - iclnoticias
Enquanto o país acompanhava perplexo, há três anos, a tentativa de golpe de Estado que se desenrolava em Brasília, com as sedes dos três Poderes sendo invadidas por centenas de pessoas, coube a Ricardo Cappelli a missão mais difícil entre os integrantes do governo.
Como interventor da segurança pública do DF, ele teria que comandar a retirada dos vândalos pela polícia, prendê-los e restaurar a ordem.
Foram 48 horas de tensão máxima, deu certo. Os dias 8 e 9 de janeiro foram os mais longos da vida de Cappelli, que enfrentou momentos em que a democracia brasileira esteve prestes a se desintegrar.
“Fui o primeiro conversar com o então comandante do Exército, general Arruda, e o clima não era nada bom, era um clima de muita tensão”, recorda ele. “O comandante de então exigia a devolução dos ônibus que a Polícia Rodoviária Federal tinha apreendido dos manifestantes pra que eles pudessem ir embora. E eu dizia pra ele que a gente não ia devolver os ônibus e que todos iriam para a cadeia”.
Nesta entrevista, Cappelli faz um balanço de como as instituições brasileiras se comportaram e conseguiram punir os responsáveis pela trama golpista. Sua avaliação é positiva, já que pela primeira vez, em um país com tantos episódios de golpes e tentativas, golpistas foram parar na cadeia.
“A democracia precisa ser regada todos os dias, nunca é uma obra pronta, mas sem dúvida alguma a gente virou uma página na história do Brasil”, .
ICL Notícias — Passados três anos da tentativa de golpe, terminado o julgamento dos golpistas, qual o balanço que você faz da reação das instituições brasileiras a esses inimigos da democracia?
Ricardo Cappelli — A história do Brasil é marcada por golpes ou tentativas de golpe, sem que jamais uma conspiração golpista tenha sido julgada. Acho que o Supremo Tribunal Federal fez história. O Supremo virou uma página ao levar pela primeira vez civis e militares responsáveis por uma conspiração golpista ao banco dos réus, julgá-los no devido processo legal e condená-los. Acho que isso demonstra maturidade da nossa democracia, a solidez das nossas instituições porque tudo isso foi feito. Civis e militares, condenados, presos, sem nenhum tipo de perturbação instabilidade social.
Então acho que as instituições saíram mais fortes, a democracia saiu mais forte e houve demonstração de que há um limite claro. Você pode votar na esquerda, pode votar na direita, mas você não pode, porque o seu candidato perdeu a eleição, tentar golpear a democracia brasileira.
Eu vejo a democracia mais forte, as instituições mais fortes com tudo que aconteceu. É claro que a democracia nunca é uma uma obra pronta. A gente nunca imaginou em pleno século 21 estar vivendo o que a gente viveu. Então, a democracia precisa ser regada todos os dias, nunca é uma obra pronta, mas sem dúvida alguma a gente virou uma página na História do Brasil.
O Judiciário teve uma atuação firme, mas o Congresso tem muitos políticos que negam ou que apoiaram o golpe. Foi aprovado até mesmo o projeto da dosimetria, que ameniza a punição aos golpistas. O que achou disso?
Vivemos tempos difíceis, tempos de polarização política, tempo de uma extrema direita forte, organizada no Brasil. E é natural que a gente tenha tensões no Congresso Nacional em função disso. O Congresso aprovou a questão da dosimetria e o presidente Lula corretamente já anunciou o veto e deve fazer isso no dia de amanhã [hoje]. Redução das penas, por quê? Porque o o Código Penal não pode ser movido à luz da conjuntura. Ele pode ser atualizado, pode ser aperfeiçoado, mas a partir de questões estruturantes. Ele não pode ser mexido a luz de fato específico.
O Congresso Nacional é o palco da luta de ideias. Então, tem uma extrema direita, tem um centro, tem uma cento direita, tem a esquerda, tem a centro esquerda. Eu acho que esse debate, essa luta no Congresso Nacional é próprio da democracia. A gente tem que ter paciência, mas ao mesmo tempo firmeza.
O presidente Lula já disse que vai vetar a dosimetria e mesmo se essa dosimetria avançar eu tenho dúvida se o Supremo Tribunal Federal não derruba essa medida.
E a população, o povão, acredita que tenha se dado conta da gravidade que foi a tentativa de golpe de Estado?
As últimas pesquisas tem apontado que a população compreendeu o que aconteceu. Pode ter aqui um debate ou outro sobre a natureza ou sobre o tamanho das penas, mas a população, de uma forma majoritária, condena o golpismo e apoia a punição dos que tentaram golpe. Então, acho que isso todas as pesquisas têm apontado e acho que isso está muito claro. Isso fortalece ainda mais as instituições e a democracia brasileira.
No 8 de Janeiro, na sua difícil tarefa de comandar a polícia do DF, controlar a multidão de golpistas e negociar com os militares do Exército, qual foi o momento mais tenso?
Os momentos mais tensos sem dúvida alguma foram o final de tarde, a noite do dia 8 e o dia 9. Porque eu fui o primeiro a chegar no acampamento [armados por bolsonaristas à frente do QG do Exército], fui o primeiro conversar com o então comandante do Exército, general Arruda, e o clima não era nada bom, era um clima de muita tensão. O comandante de então exigia a devolução dos ônibus que a Polícia Rodoviária Federal tinha apreendido dos manifestantes pra que eles pudessem ir embora. E eu dizia pra ele que a gente não ia devolver os ônibus e que todos iriam para a cadeia.
Então, foi um momento muito tenso até que a gente conseguiu firmar o acordo de desmontar o acampamento no dia seguinte às seis e meia da manhã. Naquela madrugada, ninguém dormiu porque a gente precisava montar toda a operação para remover mil e quinhentas pessoas durante a madrugada. A gente teve que montar a maior operação de polícia judiciária da história do Brasil na Academia Nacional da Polícia Federal, no Colorado. Isso significa arrumar colchonete, arrumar alimentação, ônibus pra transportar todo mundo, equipe médica.
Então sem dúvida alguma o dia 8 e o dia 9 foram muito tensos. No dia 9 ainda o comandante da Polícia Militar entrega o cargo e eu vejo a tropa sem comandante, tenho que nomear um comandante interino ali, no calor dos acontecimentos. Além disso, eu exonero cinco comandantes de batalhões da Polícia Militar naquele dia. Foi tudo muito tenso, momentos muito difíceis
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