‘Momento crítico no mundo’, alerta Celso Amorim, após ataque dos EUA à Venezuela
‘Momento crítico no mundo’, alerta Celso Amorim, após ataque dos EUA à Venezuela
Por Heloisa Villela
Assessor especial do Presidente Lula para assuntos internacionais e um dos diplomatas mais experientes do Brasil, o embaixador Celso Amorim não esconde a perplexidade que tomou conta das relações internacionais no momento em que o governo dos Estados Unidos, sob Donald Trump, decidiu bombardear a Venezuela e sequestrar o presidente Nicolás Maduro e a mulher dele, a primeira dama Cilia Flores.
Se a intenção de Washington é, entre outras, afastar a China das relações comerciais com a América do Sul, Trump vai encontrar resistência. Amorim garantiu que não existe possibilidade de o Brasil aceitar qualquer tipo de imposição dessa natureza. Mas ele também disse que o momento é de profunda mudança e que o resultado dessa mudança ainda é imprevisível.
Amorim acredita no diálogo e na pressão política como saídas possíveis para a crise criada pela decisão do presidente estadunidense. Se houver disposição para o diálogo, a diplomacia pode ajudar.
O embaixador destaca que o ataque à Venezuela também está sendo traumático dentro dos Estados Unidos. O país terá eleições no segundo semestre para renovar a Câmara dos Deputados e um terço do Senado. A população, avessa a gastos no exterior, especialmente quando enfrenta aumento de preços internamente, pode dar o troco a Trump nas urnas.

ICL Notícias — A partir do que aconteceu no dia 3 de janeiro, ingressamos definitivamente em uma nova ordem mundial?
Celso Amorim — Achar que estamos em uma nova ordem mundial é otimismo. Nós estamos em uma época de profunda mudança na qual a velha ordem está sendo totalmente ignorada. Ela já vinha sendo enfraquecida. Nós mesmos falávamos que era necessária uma nova ordem, só que agora, por motivos não positivos, obviamente, há uma total desconsideração do que foi a ordem do pós-guerra.
Como será construída uma nova ordem é uma questão ainda em aberto. Não pode ser simplesmente a lei do mais forte, não podemos voltar ao que era o mundo desenhado por Hobbes, a guerra de todos contra todos, mas eu acho que certamente a velha ordem acabou.
Os Estados Unidos desconsideram a ONU há anos. Deram as costas ao Conselho de Segurança e invadiram o Iraque. O que a organização pode fazer agora?
Eu não sei o que a organização pode fazer agora. Muita gente diz que é um talk shop, um lugar para discutir. Eu acho que a discussão é sempre útil. A ONU não tem poder de ir contra aquilo que os membros permanentes dizem que não vai ocorrer. Ou vice-versa. Há uma limitação do poder da ONU.
Volto a dizer que nós estamos atravessando um momento crítico no mundo. Eu tinha esperanças em mudanças positivas, até meio de fora para dentro, com o G20, mas quando vejo que a África do Sul não é convidada para as reuniões do G20, eu também coloco isso em dúvida. Eu acho que nós estamos ainda experimentando a mudança, estamos no meio da mudança, e não sabemos o que virá depois.
Temos os nossos princípios, vamos trabalhar por eles junto com todos os países. Se for possível, com os Estados Unidos, mas também com a China, com a Rússia, com a Europa e sobretudo com a nossa própria região. É o que podemos fazer.
A ordem mundial não é como construir um edifício que você faz uma arquitetura prévia. A mudança é quase como uma coisa permanente, então vamos tentar fazer dessa forma.
Quando situações tão drásticas como essas acontecem, temos a tendência de pensar em um tudo ou nada. Que as possibilidades de atuação diplomática acabaram. Como a diplomacia pode propor saídas para o que está acontecendo?
Nós não podemos remediar o que já aconteceu. Isso é uma ferida que vai ficar. Mas podemos, daqui para frente, tentar ver se há maneiras de que isso não se agrave, não se generalize, não seja aceito como um precedente normal. Isso pode ser feito. Não é simples. Precisa de muito diálogo. Mas para haver diálogo, também é preciso haver disposição de todos os atores principais. Não é a diplomacia que cria isso. É uma coisa coletiva, complexa, mas a diplomacia pode ajudar e tem que tentar ajudar.
Que cenários a história da humanidade nos oferece para analisar esse momento?
É muito complexo. Mas já que a pergunta é filosófica, vou responder filosoficamente. Nós nunca pisamos o mesmo rio. É como dizia Heráclito, ele está sempre mudando. Em aspectos específicos, sim.
Como vai ser a convivência do governo da presidente provisória da Venezuela com os Estados Unidos, pode ser que a diplomacia possa ajudar. Agora, dizer que existe um modelo, é dessa forma, não creio.
Que medidas a região, dividida como está, pode adotar frente ao ataque dos EUA à Venezuela?
Medidas para o conjunto da região, não acho realista neste momento pela razão mesma da sua pergunta. Mas acho que podemos tentar reunir vozes, como foi feito por vários países, inclusive de fora da região, como é o caso da Espanha, e expressar nosso desconforto, nosso até rechaço a essas atitudes.
Agora, que efeito isso terá, também ainda não sei. Estamos realmente vivendo uma situação inédita neste século, ou da Segunda Guerra para cá, com certeza. Difícil dizer qual será o resultado.
Marco Rubio, Secretário de Estado dos EUA, deixou claro, em duas entrevistas, que não aceita a venda de petróleo da Venezuela para a China e a participação crescente da China nas relações comerciais com países da região. Como isso pode afetar o Brasil que tem, na China, seu maior parceiro comercial?
Eu acho que nós não vamos aceitar nenhuma proibição de comerciar com a China. Continuará sendo nosso grande parceiro e em muitos casos, preenchendo lacunas. Eu já tenho citado por exemplo o caso da BYD que entrou no lugar onde havia uma fábrica da Ford.
Muitas vezes são os Estados Unidos, pelo sistema deles, pela maneira de atuarem, que não aproveitam as oportunidades de investimento. Nós não vamos negar o interesse de outros países de fazer o que também for das nossas necessidades, das nossas demandas. Por exemplo: se a China quer investir em uma ferrovia que vai unir o Pacífico ao Atlântico, nós vamos apoiar (o Brasil já está construindo uma ferrovia de um oceano ao outro). Como também, se os EUA quiserem investir de uma maneria que seja respeitosa da nossa soberania, tudo bem.
Que atuação pode ter o BRICS nessa crise?
Eu não vejo dessa maneira. Vejo a importância do BRICS a médio e longo prazo, construindo alternativas de cooperação. Esse ato agora, e talvez seja otimismo da minha parte, está sendo muito traumático nos próprios Estados Unidos.
https://iclnoticias.com.br/ataque-eua-venezuela-amorim-momento-critico/
