Feliz 1938! - Jamil Chade
Feliz 1938!
Mas é um ano, acima de tudo, revelador do comportamento desse governo em sua atitude pelo mundo.
Antes de mais nada, em 4 de fevereiro de 1938, o líder alemão Adolf Hitler desmontou o tradicional comando das forças armadas e, em seu lugar, criou o Oberkommando, dando ao seu gabinete controle direto para demitir qualquer general ou militar que não fosse simpático às suas causas. Naquele momento, pelo menos um deles foi expulso sob a acusação de ter comportamentos homossexuais.
Um século depois, a operação no Pentágono para enquadrar generais mandou uma mensagem a todos os militares: eles não estão mais à serviço da Constituição americana. A missão é a de defender um governo e seus devaneios.
Um mês depois, em 3 de março de 1938, Sir Nevile Henderson, embaixador britânico na Alemanha, apresentou ao Fuhrer uma proposta para um consórcio internacional que governaria grande parte da África com a Alemanha em sua liderança. Em troca, Berlim se comprometeria em nunca recorrer à guerra para alterar suas fronteiras.
Hitler agradeceu, mas rejeitou a proposta. No dia 12 de março daquele ano, as tropas alemãs ocuparam a Áustria.
O ódio contra os estrangeiros que serão subjugados é de uma semelhança impactante diante das falas repugnantes que temos ouvido contra latinos ou a população da Somália, em 2026. Em 10 de dezembro de 1938, Hermann Göring, em um discurso em Nuremberg, chamou os checos de “raça pigmeia miserável”.
Não há como não traçar paralelos diante do erro das potências estrangeiras diante da ameaça que lhes cercava. Em Genebra, a Liga das Nações estava praticamente abandonada, ainda que seus escritórios e funcionários operassem como se nada estivesse ocorrendo.
A decisão de ignorar a entidade criada depois da Primeira Guerra Mundial havia sido a escolha política de França e Reino Unido, que passaram a apostar em negociações bilaterais para silenciar os tambores da guerra.
Ecos daquele cenário reverberam hoje nas salas do Conselho de Segurança da ONU, incapaz ou indisposta a agir diante de mortes diárias. Soma-se a isso a missão que Donald Trump deu a seus diplomatas para destroçar as Nações Unidas, sem que seja freado por ninguém. Nem pelo Sul Global e nem por antigos aliados.
No dia 15 de setembro, Neville Chamberlain chega a Berchtesgaden para iniciar negociações com Hitler sobre os Sudetos da Checoslováquia. Uma segunda viagem ocorreria uma semana depois, desta vez para Godesberg para uma nova rodada de negociações com o alemão.
Internamente, o Fuhrer não se deixava intimidar pelos estrangeiros. Em 26 de setembro, em um discurso no Palácio dos Esportes de Berlim, Hitler desafiava o mundo e acusava governos vizinhos de serem “ditaduras”. Chantageava quem viesse negociar com ele. Mas insistia e manipulava a opinião pública dizendo que, assim como hoje ouvimos, que ele apenas queria a “paz”.
Disse Hitler:
Sou grato ao Sr. Chamberlain por todos os seus esforços. Assegurei-lhe que o povo alemão não deseja nada além da paz; mas também lhe disse que não posso ultrapassar os limites da nossa paciência.
Assegurei-lhe, além disso, e repito aqui, que quando este problema for resolvido, não haverá mais problemas territoriais para a Alemanha na Europa. E assegurei-lhe ainda que, a partir do momento em que a Checoslováquia resolver os seus outros problemas, isto é, quando os checos chegarem a um acordo com as suas outras minorias, pacificamente e sem opressão, não terei mais interesse no Estado checo. E isso, no que me diz respeito, garanto. Não queremos nenhum checo.
Mas devo também declarar perante o povo alemão que, no que diz respeito ao problema dos alemães dos Sudetos, a minha paciência chegou ao fim. Fiz uma oferta ao Sr. Benes que nada mais foi do que a concretização do que ele já havia prometido. Agora, ele tem a paz ou a guerra nas mãos. Ou ele aceitará esta oferta e finalmente dará a liberdade aos alemães, ou conquistaremos essa liberdade para nós mesmos.
No dia 29 de setembro, Hitler convida o italiano Benito Mussolini, o primeiro-ministro francês Édouard Deladier e o primeiro-ministro britânico Neville Chamberlain para uma última conferência. Pelo Acordo de Munique, os líderes concordam com as exigências alemãs relativas à anexação dos Sudetos na Checoslováquia. O governo checoslovaco sequer é consultado.
Neville Chamberlain retorna à Grã-Bretanha um dia depois e declara: “Paz para o nosso tempo”.
Naquele mesmo ano, Churchill alertou para o erro cometido pelos britânicos. “Parece que estamos muito perto da escolha sombria entre Guerra e Vergonha. Minha sensação é que escolheremos a Vergonha e, então, teremos a Guerra jogada um pouco mais tarde em termos ainda mais adversos do que no presente”, disse.
Em 2026, na esperança de que a potência atual se limite à anexação da Venezuela e sua transformação num protetorado, grandes potências se limitaram a emitir notas de condenação, alertas sobre o significado do direito internacional. E mais nada.
Em 2026, na esperança de que a Casa Branca possa ser freada na Groenlândia, América Central ou em qualquer outra região do mundo, líderes se apressam em propor negociações que apaziguem a ambição do império.
Todos sabemos o que ocorreu no final daquele ano de 1938. Em 9 de novembro, Kristallnacht – a infame Noite dos Cristais Quebrados foi conduzida pela turba nazistas contra a comunidade judaica na Alemanha e na Áustria. 91 judeus foram mortos, 30 mil foram presos e milhares de lojas e sinagogas destruídas. Uma violência “espontânea”, sempre incentivada pela liderança no poder.
Era o prenúncio do Holocausto. 1939 estava prestes a começar.
Os primeiros sinais da aurora deste ano confirmam que a história, ainda que não se repita, rima.
Cabe à nossa geração despertar de uma sonolência inquietante e romper a amnésia coletiva. A história não nos perdoará se permanecermos como meros espectadores do desmonte da civilização.
Cruzando fronteiras com refugiados, testemunhando crimes contra a humanidade, viajando com papas ou cobrindo cúpulas diplomáticas, Jamil Chade percorreu mais de 70 países. Com seu escritório na sede da ONU em Genebra, ele foi eleito o segundo jornalista mais admirado do Brasil em 2025. Chade foi indicado 4 vezes como finalista do prêmio Jabuti. Ele é embaixador do Instituto Adus, membro do conselho do Instituto Vladimir Herzog e foi um dos pesquisadores da Comissão Nacional da Verdade.
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