Refit: Como funciona o esquema Delaware que envolve o líder do MBL e comentarista da Jovem Pan
MÍDIA E FASCISMO
Por Diego Feijó de Abreu
Escrito POLÍTICA 28/11/2025 ·
Refit: Como funciona o esquema Delaware que envolve o líder do MBL e comentarista da Jovem Pan
Investigação sugere que, longe dos microfones, Cristiano Beraldo operava estrutura financiada pela sonegação de bilhões de reais em tributos, recursos que faltam à saúde e à segurança pública que afirma defender em seus editoriais
A "Operação Poço de Lobato", deflagrada por uma força-tarefa que une a Receita Federal e Ministérios Públicos de diversos estados, expôs as entranhas de uma engenharia financeira internacional destinada à blindagem de patrimônio supostamente ilícito.
No epicentro dessa investigação, que mira um rombo fiscal superior a R$ 26 bilhões ligado ao Grupo Refit, surge o nome de Cristiano Moreira Pinto Beraldo.
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O comentarista e figura proeminente do Movimento Brasil Livre (MBL) é apontado pelos auditores não como um mero coadjuvante, mas como uma das peças-chave na operacionalização de empresas offshore.A Fórum já havia antecipado as conexões políticas deste
esquema, que agora ganham contornos oficiais nos relatórios
de inteligência financeira.
O cerne da apuração detalha como o estado norte-americano de Delaware foi transformado em um verdadeiro "bunker" para ocultação de bens que, segundo o fisco, pertencem de fato ao empresário Ricardo Magro.
Embora Delaware seja conhecida globalmente por sua legislação societária opaca, a Receita Federal identificou que a eficácia da blindagem dependia de um operador de confiança em solo americano. É neste ponto que entra a figura do líder do MBL, cuja função seria gerir a estrutura para garantir que o patrimônio permanecesse inalcançável para a Justiça brasileira.
segundo os documentos da investigação, Beraldo aparece como gestor da Oceana KB Real Estate LLC. A escolha desta entidade não é acidental: trata-se de um veículo corporativo desenhado para o mercado imobiliário. A Receita aponta que a função primordial dessa estrutura era receber recursos drenados do Brasil, oriundos da inadimplência tributária sistemática da Refit, e convertê-los em ativos reais (imóveis) nos Estados Unidos.
Essa manobra de conversão é clássica em tipologias de lavagem de dinheiro, pois confere aparência lícita e solidez econômica a capitais de origem duvidosa.
Para os auditores fiscais, o papel desempenhado por Beraldo configura uma clássica "interposição de pessoas". Ao assumir a posição de "manager" (gerente) da LLC, o influenciador detinha poderes para assinar escrituras, movimentar contas bancárias e representar a empresa perante as autoridades americanas.
Essa gestão administrativa criava uma camada de isolamento indispensável para o esquema: o verdadeiro beneficiário dos recursos não precisava expor seu nome em nenhum documento oficial, mantendo-se protegido nas sombras enquanto o operador do MBL dava a cara a tapa na burocracia americana.
A investigação destaca que a operação não se limitava a abrir uma empresa de papel. A gestão da Oceana KB exigia atos contínuos de administração patrimonial, o que, na visão da Receita, desmonta a tese de que o envolvimento de Beraldo seria passivo ou pontual.
O "Esquema Delaware" funcionava como uma engrenagem ativa de evasão de divisas, onde o dinheiro deixava de entrar nos cofres públicos brasileiros como imposto para virar propriedade privada no exterior sob a tutela administrativa de um gestor profissional e politicamente exposto.
Um ponto de destaque no relatório da Receita é a refutação da tese de "cegueira deliberada". A defesa de que o gestor apenas administrava empresas sem conhecimento da origem dos fundos é confrontada pela natureza fiduciária da relação.
Para gerir uma offshore em um paraíso fiscal em nome de terceiros, é necessário um nível de confiança e alinhamento que sugere, segundo os investigadores, ciência sobre a necessidade de ocultação. O fisco vê indícios de que a estrutura foi montada com o dolo específico de fraudar a execução fiscal no Brasil.
O caso ganha relevância política explosiva ao se contrastar a atuação privada de Beraldo com sua persona pública. O comentarista construiu sua carreira e capital político no MBL empunhando a bandeira da moralidade administrativa, do combate à corrupção e da crítica feroz à ineficiência do Estado.

No entanto, a investigação sugere que, longe dos microfones, ele operava uma estrutura financiada justamente pela sonegação de bilhões em tributos, recursos que faltam à saúde e à segurança pública que ele afirma defender em seus editoriais.
Além da gestão imobiliária, a apuração mapeou uma rede sofisticada de suporte financeiro. Antes de o dinheiro chegar às mãos de Beraldo em Delaware, ele percorria um caminho tortuoso através de empresas de fachada e operadoras financeiras no Brasil, desenhadas para despistar o rastreamento bancário.
A função do líder do MBL seria a etapa final e mais nobre desse ciclo: a integração do capital sujo na economia formal americana, garantindo a fruição dos bens pelos beneficiários do esquema sem o risco de penhora imediata.
A "Operação Poço de Lobato" lança luz sobre como a figura do "laranja" evoluiu. Não se trata mais apenas de usar nomes de pessoas humildes para abrir firmas fantasmas, mas de utilizar operadores qualificados, com trânsito internacional e imagem pública respeitável, para conferir verniz de legalidade a operações criminosas.
A Receita Federal trata o caso como emblemático do uso de jurisdições estrangeiras para lesar o erário nacional, com a cumplicidade ativa de agentes que operam a partir do Brasil ou com forte vínculo local.
Por fim, o desmantelamento do esquema em Delaware pode ter implicações jurídicas que ultrapassam as fronteiras brasileiras. O uso do sistema financeiro americano para lavar dinheiro oriundo de crimes fiscais no exterior pode atrair a atenção das autoridades dos EUA.
Para o líder do MBL, além do desgaste de imagem irreparável perante sua base de seguidores, resta o desafio de explicar à Justiça como a gestão de um império imobiliário oculto se encaixa na narrativa de renovação política que ele pregava.
https://revistaforum.com.br/politica/2025/11/28/refit-como-funciona-esquemadelaware-que-envolve-lider-do-mbl-comentarista-da-jovem-pan-193129.html
