Lula dá cartada final e revela blefe na política antidrogas de Trump na América Latina
CRIME NO ANDAR DE CIMA
Caso Refit: Lula dá cartada final e revela blefe na política antidrogas de Trump na América Latina
Declaração de Haddad sobre tráficos de fuzis dos EUA para facções criminosas no Brasil sinaliza que PF pode implodir conexão drogas, armas, combustíveis, Faria Lima e políticos da direita.
Em seguida, Haddad revelou os próximos passos da investigação, conduzida pela Receita e Polícia Federal, em parceria com ministérios públicos e fiscos estaduais.
“Armas estão chegando no Brasil de contêineres de lá, vêm peças de reposição ou o próprio armamento, ilegalmente. Pedi para o [secretário da Receita, Robson] Barreirinhas fazer um relatório documentando com fotografias, número de contêineres. Demonstrando que a parceria é fundamental. Se queremos impedir que a droga chegue lá [nos EUA], é fundamental que iniba o crime nos territórios impedindo que o armamento pesado chegue ao Brasil."
A declaração de Haddad revela o blefe da política "antidrogas" de Trump, que bombardeia barcos e trama invasões por terra a países ricos em petróleo - como a Venezuela - na América Latina, sob o argumento de combater grupos "narcoterroristas" e impedir a entrada de drogas nos EUA.
O país, no entanto, lucra com a lavagem de dinheiro e o fornecimento de armamento pesado para as mesmas organizações criminosas que diz combater.
E tudo isso com a cumplicidade e auxílio de grupos políticos que atuam pelo lobby armamentista e que buscam transformar as facções - como o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) - em organizações terroristas para dar aval ao bombardeio de barcos na Baía da Guanabara, como pediu recentemente o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
“É o andar de cima que irriga com bilhões as atividades criminosas. Não estamos falando de milhões, mas de bilhões. Hoje estão sendo bloqueados R$ 8 bilhões de fundos”, disse o ministro.
Na entrevista, Haddad disse ter levado o tema ao presidente Lula e que o assunto deve integrar a pauta de negociações com Trump.
"Chegamos a levar ao presidente Lula a necessidade de, nas negociações com os Estados Unidos, pautar o combate ao crime organizado, porque eles estão utilizando o estado de Delaware, que é um paraíso fiscal nos Estados Unidos, para montar operações lá, de evasão de divisa e lavagem de dinheiro. Então, são abertas empresas lá, são dezenas de empresas e fundos que estão sendo abertos fora do Brasil".
Andar de cima
A declaração de Haddad - destacado por Lula para mostrar
que política de segurança se faz principalmente com
operações na Faria Lima e investigações em paraísos fiscais,
como Delaware - também revela o jogo de cartas
dos governadores de direita, capitaneados por Tarcísio
Gomes de Freitas (Republicanos),
de usar as ações espetaculosas como a que deixou 121 mortos
- entre eles quatro policiais - nas comunidades da Penha e do
Alemão, no Rio de Janeiro, para antecipar o debate
presidencial daquele que é considerado o "calcanhar de
Aquiles" dos governos progressistas.
Dados divulgados pelo Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC, na sigla em inglês) em 2021 já revelavam que havia no Brasil cerca de 8 milhões de armas ilegais, sendo que mais da metade delas era contrabandeada dos EUA. O estudo estimava que só no Rio de Janeiro chegam cerca de 4 mil armas por dia, sendo 25% delas fuzis.
Antes de chegarem às mãos de jovens e até mesmo crianças aliciadas pelos traficantes nas comunidades - e que, geralmente, são mortos nas operações policiais -, esse armamento pesado abastece a vida de luxo de "empresários" que vivem em mansões na Barra da Tijuca, zona Sul do Rio, ou comandam clubes de tiros no rico interior de São Paulo.
Todo esse estratagema que une tráfico de drogas e armas aos setores de combustíveis e às fintechs da Faria Lima, no entanto, só foi construído a partir da cumplicidade de lobistas no mundo político, que ecoam o discurso de "bandido bom é bandido morto", propagado por Jair Bolsonaro por 30 anos nas hostes do Congresso - mas que só vale quando o alvo é pobre, preto e morador de favelas.
A política armamentista do ex-presidente - preso por articular um golpe de Estado - colocou em circulação 1.354.751 armas entre os anos de 2019 e 2022, segundo dados oficiais.
Desse total, 431.137 foram adquiridos pelos chamados Colecionadores, Atiradores Desportivos e Caçadores (CACs), alcunha turbinada durante os quatro anos de seu governo, formada por amantes dos falos fumegantes que ainda se reúnem em clubes de tiros que servem de entreposto para os fuzis vendidos a organizações como Comando Vermelho e PCC.
Em 2024, dados da Polícia Militar do Rio de Janeiro, estado governado pelo bolsonarista Cláudio Castro ((PL-RJ), mostram que dos 638 fuzis apreendidos no ano pela corporação, 604 (94,68%) foram fabricados no exterior, sendo que 60% deles têm como origem os EUA.
Segundo a própria PM fluminense, muitos fuzis chegaram ao território nacional em peças avulsas, também compradas nos Estados Unidos ao custo de aproximadamente R$ 6 mil, na cotação atual do dólar. Depois de montados, os fuzis são vendidos às facções criminosas por cerca de R$ 50 mil.
Barra da Tijuca e Clube de Tiro em Americana
Segundo investigações da Polícia Federal e de polícias estaduais, como a do Rio de Janeiro, as peças e fuzis já montadas são contrabandeadas dos EUA por duas rotas. Uma delas passa por Paraguai e Bolívia. Uma segunda rota entra por meio dos aeroportos e portos, inclusive na Baía de Guanabara, com armas maquiadas em contêineres, citados por Haddad, em meio a outras mercadorias.
Em março deste ano, a PF desencadeou a operação Cash Courier que colocou atrás das grades Josias João do Nascimento, um agente aposentado da própria PF que foi classificado como "Senhor do Senhor das Armas", por ser o chefe do brasileiro Frederick Barbieri, condenado por tráfico internacional de armas pela Justiça dos EUA, e que até então sustentava o título de "Senhor das Armas" no Brasil.
Nascimento foi preso em sua mansão no Alphaville, um condomínio de alto luxo na Barra da Tijuca, bairro nobre da Zona Sul do Rio, onde o clã Bolsonaro tem casas no condomínio Vivendas da Barra.
Segundo as investigações, cerca de 2 mil fuzis, a maioria com a remuneração raspada, foram enviados dos EUA para o Rio entre 2011 e 2018 pela quadrilha. Em meio a cargas de equipamentos pesados como motores, aquecedores de piscina e aparelhos de ar-condicionado, foram despachadas armas como AK-47 e AR-10, usadas por tropa de elite da polícia e que foram parar, em sua maioria, nas mãos do Comando Vermelho.
Com a farra dos CACs e dos Clubes de Tiro no governo Bolsonaro, o contrabando de armas foi turbinado e pulverizado para montagem em outras regiões do país, antes de serem entregues às facções criminosas.
Em maio deste ano, a PF prendeu o CAC Eduardo Bazzana, 69 anos, tido até então como um bem sucedido empresário, dono do Clube Americanense de Tiro e sócio de quase uma dezena de empresas em Americana, no interior de São Paulo.
Na mansão de Bazzana, foram apreendidas mais de 200 armas, 40 mil munições e carros de luxo, como um Cadillac de mais de R$ 2 milhões. Entre os 7 mil sócios do Clube de Tiro haviam empresários, policiais e políticos - cujos nomes não foram revelados.
No entanto, nas contas do Tribunal Superior Eleitoral em 2018, o empresário aparece como doador de parcos R$ 510 à campanha de Aloísio Bueno, então candidato a deputado estadual pelo PSL, partido pelo qual Jair Bolsonaro foi eleito presidente da República.
Em 2023, quando já estava na mira da PF, Bazzana foi recebido na Câmara Municipal de Americana pelo vereador e pastor evangélico Marcos Caetano, do PL. “Recebendo em nosso gabinete a diretoria do CAT, o Eduardo Bazzana”, escreveu o bolsonarista nas redes, juntamente com foto ao lado do empresário.
Bazzana tinha autorização do Exército para o Clube de Tiro e para a PHVB Armas, empresa que recebeu Pix milionários do Comando Vermelho. As armas viriam da PH Bazzana Investments LLC, uma das empresas que o empresário teria nos EUA.
O empresário paulista tinha como interlocutor no Comando Vermelho Carlos Bandeira Rodrigues, o Zeus Muzema ou Da Roça, acusado de tráfico em Rondônia que passou meses refugiado no Complexo do Alemão, Zona Norte do Rio.
Durante a operação, Da Roça foi identificado como chefe do Comando Vermelho na Muzema, um complexo de favelas na Zona Oeste do Rio que a facção tomou de milicianos.
A Muzema ficou conhecida em 2019, em meio às investigações das chamadas "rachadinhas", esquema de corrupção que funcionava no gabinete de Flávio Bolsonaro na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj).
Segundo investigações do Ministério Público do Rio de Janeiro (MP-RJ), paralisadas pelo clã Bolsonaro no Superior Tribunal de Justiça (STJ), parte do dinheiro das "rachadinhas" teria financiado a construção de prédios irregulares em Rio das Pedras, área até então controlada pela mesma milícia que comandava a Muzema.
Na mesma região, Fabrício Queiroz, ex-policial e ex-assessor do filho zero um de Bolsonaro, teria se escondido após revelado o esquema de corrupção na Alerj. De lá, o ex-capitão do Bope, Adriano da Nóbrega, comandava o Escritório do Crime, braço de extermínio da milícia.
Morto em fevereiro de 2020 em uma emboscada da polícia baiana, Adriano da Nóbrega empregou a mãe, Raimunda Veras Magalhães, e a ex-mulher, Danielle Mendonça da Costa da Nóbrega, no gabinete de Flávio na Alerj. O ex-Bope também foi homenageado por Jair Bolsonaro e hoje assombra o clã.
Trunfo de Lula contra Trump, o aprofundamento das investigações da Polícia Federal sobre a conexão drogas, armas, combustíveis, Faria Lima e o submundo da política, especialmente na direita e ultradireita, pode revelar cartas que ficaram escondidas nos últimos anos. E garantir a Lula o Royal Flush na disputa à reeleição contra Tarcísio em 2026.
https://revistaforum.com.br/global/2025/11/28/caso-refit-
lula-da-cartada-final-revela-blefe-na-politica-antidrogas-
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