Sem Brasil e potências europeias, Trump funda seu ‘Conselho da Paz’ e critica ONU

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Jamil Chade

Sem Brasil e potências

europeias, Trump funda seu

‘Conselho da Paz’ e critica ONU

Evento em Davos ocorre depois que Reino Unido e França informaram que não irão aderir por enquanto ao projeto. Ato se transformou em palanque de Trump.
22/01/2026 


O presidente dos EUA, Donald Trump, fundou nesta quinta-feira, em Davos, o que ele passou a chamar de Conselho da Paz. O órgão que rivaliza com a ONU teria a missão de lidar com as principais crises mundiais, ainda que o mandato e os detalhes do organismo não tenham sido esclarecidos.

Num palco com o símbolo da nova organização, repetindo os ramos cruzados no emblema das Nações Unidas, o protocolo sugeria que estava sendo criada uma entidade para consolidar o poder de Trump no mundo. Não por acaso, em todo o pano de fundo, era o brasão dos EUA que estava ao lado do termo “Conselho da Paz”.

O evento começou quando Trump foi chamado ao palco como autoridade máxima da nova iniciativa. O americano justificou que ele foi “convidado” a ser o líder do projeto, ainda que não tenha explicado quem o convidou.

Os demais líderes eram meros coadjuvantes, sentados em silêncio ao lado do americano, que fazia um longo monólogo sobre seus feitos.

Até mesmo a entrada em vigor do acordo foi feito a partir de uma manipulação. Pelo tratado, a assinatura de três países era suficiente para que a organização passasse a existir. Trump, então, chamou Bahrein e Marrocos para a mesa central do palco, assinou e seus assessores anunciaram que o novo organismo internacional estava criado.

Um por um, os demais líderes foram chamados para assinar o ato de fundação. Todos em silêncio.

Além de Trump, apenas mais três pessoas tomaram a palavra: a porta-voz da Casa Branca, Karoline Leaviit, o enviado da Casa Branca para o Oriente Médio, Steve Witkoff, seu genro Jared Kushner, e o secretário de Estado, Marco Rubio. “Isso aqui é resultado do sonho do presidente Trump”, disse o chefe da diplomacia dos EUA.

Rubio ainda criticou entidades onde “nada acontece” e sinalizou que o destino de Gaza pode ser o destino de “outras parte dos mundo”.

Alfinetadas contra a ONU

“Vamos trabalhar com todos, inclusive com a ONU”, prometeu Trump, que repetiu seu mantra que teria encerrado sozinho oito guerras. Em certo momento, ele admitiu que “nem sabia” que algumas daquelas guerras estavam ocorrendo.

Mas usou o evento para repetir suas críticas contra a instituição. “A ONU tem um enorme potencial e acho que combinação desse Conselho com eles pode ser positiva”, disse. No acordo, porém, o novo organismo tem o compromisso de apenas informar a cada seis meses o que está fazendo às Nações Unidas.

Se o Conselho é da paz, o discurso foi desenhado para insistir no poder militar dos EUA e no êxito dos ataques de seu governo contra inimigos. “Somos o maior poder militar do mundo”, disse.

Ele ainda garantiu que Gaza será desmilitarizada e que será “reconstruída lindamente”. O evento ainda anunciou a “desradicalização” do local, livre mercado e segurança. Um dos pontos de fronteira entre Gaza e o Egito serão abertos a partir da semana que vem.

Nova fase contra narcotráfico latino-americano

O discurso de criação ainda sugeriu que o governo americano poderá lançar uma nova ofensiva contra grupos do crime organizado na América Latina, desta vez por terra.

Para Trump, a parte “mais difícil” era por mar. “Agora será mais fácil”, disse. Ele sinalizou que estava esperando “resolver” a situação política na Venezuela com o sequestro de Nicolás Maduro para, agora, ampliar sua atuação.

Esvaziado

Trump, que convidou 59 líderes pelo mundo ao novo organismo, esperava transformar o ato na confirmação de seu poder. Pelas regras do Conselho, o presidente americano será a autoridade máxima da nova entidade e o único a poder vetar decisões. A adesão de um país para ser membro permanente depende de apenas dois critérios: depositar US$ 1 bilhão e ser convidado pelo presidente dos EUA.

A resposta gelada por parte de algumas das principais potências esvaziou o encontro em Davos. Ao lado de Trump estavam apenas seus aliados mais submissos, entre eles a Argentina, Paraguai, Marrocos, Armênia, Hungria e Israel.

Também farão parte os governos da Arábia Saudita, Paquistão, Catar, Kosovo, Indonésia, Uzbequistão, Mongólia, Turquia, Egito, Emirados Árabes Unidos, Bahrein, Albânia, Armênia, Azerbaijão, Bielorrússia, Cazaquistão e Vietnã.

O governo brasileiro não mandou nenhum representante ao evento e ainda examina a proposta. Mas há uma forte pressão por parte de assessores do Palácio do Planalto para que o Brasil não aceite o convite.

Governos como o do Reino Unido, França, Eslovênia, Irlanda, Holanda e Noruega rejeitaram a iniciativa, por enquanto. Itália e Alemanha optaram por uma cautela, não se comprometendo com qualquer adesão.

Um dos principais temores é de que o projeto represente um abalo mortal para a já combalida ONU.

Já Vladimir Putin sugeriu que poderia considerar o projeto. 

Mas disse que estava disposto a pagar US$ 1 bilhão, caso os ativos russos confiscados nos EUA desde a invasão da Ucrânia sejam descongelados. 

O Kremlin, assim, coloca a administração Trump em uma encruzilhada.

Trump parecia não se importar com os fatos e o esvaziamento do projeto. “Teremos paz no mundo”, disse.

Jamil Chade
Jamil Chade

Cruzando fronteiras com refugiados, testemunhando crimes contra a humanidade, viajando com papas ou cobrindo cúpulas diplomáticas, Jamil Chade percorreu mais de 70 países. Com seu escritório na sede da ONU em Genebra, ele foi eleito o segundo jornalista mais admirado do Brasil em 2025. Chade foi indicado 4 vezes como finalista do prêmio Jabuti. Ele é embaixador do Instituto Adus, membro do conselho do Instituto Vladimir Herzog e foi um dos pesquisadores da Comissão Nacional da Verdade.

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