Crise de Tarcísio com prefeitos do interior coloca sua reeleição em risco
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Crise de Tarcísio com prefeitos do interior coloca sua reeleição em risco
Insatisfeitos com o governador, gestores municipais de cidades do interior de São Paulo reclamam de represamento de verbas e "falta de atenção"; PP cogita lançar candidato próprio
Por: Ivan Longo
Publicado: 20/01/2026 - às 05h02
O governador de São Paulo Tarcísio Gomes de Freitas -
A relação do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), com prefeitos do interior do estado entrou em rota de colisão e pode ser um fator de risco para sua tentativa de reeleição em 2026.
Reclamações sobre represamento de recursos, dificuldades de interlocução política e falta de atenção às demandas municipais se acumulam, atingem partidos de sua base base e já alimentam movimentos para a construção de candidaturas alternativas ao Palácio dos Bandeirantes.
Em 2025, segundo o jornal Folha de S. Paulo, a liberação de recursos estaduais para investimentos via transferências voluntárias a municípios ficou abaixo do patamar registrado no ano anterior durante quase todo o exercício.
Até a segunda quinzena de dezembro, os repasses somavam cerca de R$ 1,27 bilhão, ante R$ 1,7 bilhão em 2024, em valores corrigidos pela inflação. Apenas nos últimos dias do ano, após cobranças públicas de aliados, o governo estadual liberou mais R$ 424 milhões, praticamente igualando o volume do ano anterior.
O atraso comprometeu planos de prefeitos que esperavam realizar entregas visíveis à população em um ano pré-eleitoral, como obras viárias, reformas de escolas e prédios públicos, compra de veículos e equipamentos agrícolas.
Pressão pública
Em regiões como o Pontal do Paranapanema, no extremo oeste paulista, a insatisfação ganhou contornos públicos. No dia 9 de janeiro, 17 prefeitos se reuniram em Anhumas para pressionar o governo pela liberação de verbas. No local, uma faixa estampava a frase “SOS governador: cidades do oeste paulista pedem socorro”.
À imprensa local, o prefeito de Anhumas, Adailton Menossi (PSD), tentou minimizar o tom do ato. “Isso aqui não é um protesto, essa faixa é só um pedido”, declarou.
Movimentos semelhantes vêm sendo articulados por prefeitos do Alto Tietê, no leste do estado, enquanto lideranças municipais relatam entraves burocráticos e conflitos internos no fluxo de liberação de recursos. Deputados e prefeitos atribuem parte do problema à relação entre a Casa Civil, comandada por Arthur Lima, e a Secretaria de Governo e Relações Institucionais, chefiada por Gilberto Kassab (PSD), onde ficaram concentrados cerca de 65% dos repasses aos municípios em 2025.
Tarcísio nega o abandono das cidades. Em nota, afirmou que, ao longo do mandato, enviou R$ 3,5 bilhões aos municípios para investimentos e que “é importante esclarecer que os investimentos estaduais não se limitam às transferências voluntárias”. O texto também destaca “mais de R$ 30 bilhões em investimentos em mobilidade urbana e logística em diferentes regiões do estado”.
PP pode lançar candidatura própria
Apesar da explicação oficial, o desgaste político avança, especialmente no Progressistas (PP), partido que concentra 54 prefeitos em São Paulo. No fim de 2025, a sigla divulgou nota pública apontando “crescente descontentamento de prefeitos” e “queixas recorrentes sobre a falta de atenção a parlamentares”, além de dificuldades de comunicação e uma “percepção de distanciamento” entre o governo estadual e a direção partidária.
O presidente nacional do PP, senador Ciro Nogueira (PI), admite a insatisfação generalizada, embora tente conter uma ruptura imediata. “Os prefeitos reclamam de falta de atenção, de diálogo. Mas não é uma coisa só do Progressistas. Eu conversei com alguns presidentes de partido. Todos reclamam disso. Mas nada que inviabilize o apoio ao Tarcísio, pois a prioridade do partido é o Derrite. E o melhor caminho para a eleição dele é a aliança com o Tarcísio”, disse.
Internamente, porém, a avaliação não é outra. Um deputado do PP paulista afirmou sob reserva, por exemplo, que as queixas podem inviabilizar apoios importantes no interior. Segundo ele, o governador teria passado a minimizar o peso político dos prefeitos após vencer a eleição de 2022 com poucas alianças municipais formais, herança de um cenário em que o PSDB concentrava a maioria das prefeituras.
Nesse contexto, o PP passou a discutir a possibilidade de lançar um candidato próprio ao governo estadual em 2026. Entre os nomes ventilados estão o ex-governador Rodrigo Garcia, que deixou o PSDB em 2024, e o empresário Filipe Sabará, ex-secretário de João Doria, responsável pela tentativa de implementar a “farinata” na merenda da escolas públicas e que vem atuando como interlocutor do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que é pré-candidato à presidência, junto ao mercado financeiro. O partido também já citou o deputado federal Ricardo Salles (Novo), embora ele tenha descartado a hipótese.
Em nota divulgada em dezembro, o PP afirmou que, diante da pré-candidatura de Flávio Bolsonaro ao Palácio do Planalto, avalia ser mais estratégico apoiar em São Paulo um nome “mais alinhado ao projeto nacional da sigla”.
O desgaste com prefeitos ocorre em um momento sensível para Tarcísio, que além de potencial candidato à reeleição no estado, é citado por aliados e adversários como possível presidenciável em 2026, sobretudo no campo da direita bolsonarista.
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