Senadora que regulou falta de líderes, Mara Gabrilli critica manobras de Eduardo Bolsonaro para salvar mandato
Parlamentar, que mudou regra na Câmara, vê casuísmo do deputado em virar líder da minoria para não ser cassado
Por Caio Sartori — Rio de Janeiro
18/09/2025 04h46 Atualizado agora
Responsável pelo último entendimento sobre a necessidade de justificativa de faltas por parte de deputados, que abriu exceções apenas para líderes partidários e integrantes da Mesa, a hoje senadora Mara Gabrilli (PSD-SP) avalia que é incongruente Eduardo Bolsonaro (PL-SP) se valer da regra para assumir a liderança da minoria na Câmara. Também alega que foi ela quem “botou ordem” na política desenfreada de faltas que vigorava até então.
— Não faz sentido algum o Eduardo se utilizar disso, até porque não existia o formato de trabalho remoto em 2015. Nem se concebia a possibilidade de um líder ficar fora do país. Se é para pegar o que foi feito em 2015, tem que dar uma atualizada e mudar determinadas coisas — afirma.
Gabrilli afirma que os líderes e a Mesa Diretora têm desde 1997, por causa da “natureza de suas funções”, a prerrogativa de não precisar justificar faltas. O que ela fez como terceira secretária da Mesa em 2015, sob a presidência de Eduardo Cunha, foi anular a inclusão de outros cargos que haviam entrado na lista em 2013: procurador, corregedor, presidente do Centro de Estudos e Debates Estratégicos, presidentes de comissão temporária, ouvidor-geral e procuradora especial da mulher.
— Do jeito que estão falando, parece que eu fui a porta de entrada da festa da falta, mas foi o contrário. Fui aquela que botou ordem nas faltas — diz a senadora.
Fora do país, Eduardo Bolsonaro não participaria do dia a dia intenso dos líderes, cuja possibilidade de não ter que explicar faltas é embasada justamente pela rotina atribulada de articulações. A liderança da minoria representa o maior bloco partidário de oposição ao governo. É o oposto do comando da maioria. Existe ainda a liderança da oposição, antítese do líder do governo, que abarca todos os partidos da oposição.
Sob risco
Nos últimos dias, quando escolheram Eduardo para assumir a minoria, bolsonaristas citaram o movimento de Gabrilli em 2015 para embasar a manobra. O filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) está nos Estados Unidos há meses articulando medidas contra o Brasil e, com isso, fica sujeito a perder o mandato por excesso de faltas.
— Gostaria de comunicar a todos a minha renúncia da liderança da minoria para transferir essa responsabilidade a Eduardo Bolsonaro. Tomamos essa decisão convictos de que o Brasil precisa de união e coragem, diante das perseguições que Eduardo e Jair Bolsonaro vêm sofrendo — disse a deputada Caroline de Toni (PL-SC), que até então exercia a função, ao anunciar a renúncia ao posto em ofício encaminhado ao presidente da Casa, Hugo Motta (Republicanos-PB).
Questionado sobre eventuais contestações, o líder do PL na Câmara, Sóstenes Cavalcante (RJ), defendeu a medida como legítima. Motta, por sua vez, afirmou que a indicação de Eduardo é uma situação “atípica” e garantiu que o caso será analisado pela Mesa Diretora. Segundo o presidente, há dúvidas na interpretação do regimento da Casa para saber se um deputado ausente pode liderar um bloco ou uma bancada.
— É claro que se trata de um caso atípico. Vamos fazer uma análise, conversar com os partidos de oposição e, no momento certo, responderei à questão de ordem — declarou Motta na terça-feira.
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