Governador que celebrou a morte de 120 no Alemão era o verdadeiro bandidão?

 


Governador que celebrou a morte de 120 no Alemão era o verdadeiro bandidão?

A população precisa desconfiar de governantes que acenam para o complexo problema da segurança pública com soluções simples
28/05/2026 | 11h01  

Chico Alves
Chico Alves

Jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho. Atualmente é editor-chefe do site ICL Notícias.


De saída, é preciso destacar o ponto de interrogação no título deste texto.

Como acontece nas democracias, será a Justiça que decidirá se Cláudio Castro, ex-governador do Rio de Janeiro, cometeu ou não os crimes que as investigações da Polícia Federal apontam no caso Master.

Documentos e trocas de mensagens revelados até aqui, no entanto, são bastante convincentes para sustentar a tese de que o homem que comandava o governo fluminense tinha um relacionamento secreto com Daniel Vorcaro e recebeu benesses para investir R$ 3,7 bilhões na maior fraude bancária da história do Brasil. A principal fatia desses recursos — R$ 1 bilhão — veio do fundo de aposentadoria dos servidores estaduais.

É um tipo singular de banditismo este que leva um político a aceitar desviar o dinheiro amealhado para a aposentadoria de trabalhadores sob seu comando em troca dos benefícios sujos de um banqueiro picareta.

Não deixa de ser trágica essa ironia: o homem apontado como protagonista deste crime horrível é o mesmo que há sete meses comandou a ação mais letal já feita pela polícia fluminense, a pretexto de livrar o Rio de criminosos.

Naquela ocasião, 122 homens foram fuzilados.

Castro classificou, então, o morticínio como um “sucesso”. Mesmo antes da apuração sobre os mortos, condenou os que moravam na comunidade e restringiu o pesar aos quatro policiais que morreram no confronto. “De vítima ontem, só tivemos esses policiais”, afirmou.

Lamentavelmente, a maior parte da população, exausta dos efeitos da escalada da criminalidade, apoiou a execução, como mostraram pesquisas de opinião. Castro momentaneamente foi alçado ao status de justiceiro, um exemplo a ser seguido por outros governantes de extrema direita. Recebeu apoio de governadores de vários estados.

À luz do que se sabe hoje, o xerife era, na verdade, um tremendo bandidão.

Não se trata de ignorar a possibilidade de que entre os 118 homens fuzilados pela polícia no Alemão houvesse alguns envolvidos com o tráfico. Para esses casos, a lei prevê prisão, acusação e julgamento, não execução sumária.

Não há esperança de enfrentamento de verdade ao crime organizado quando as próprias autoridades não cumprem as leis. A população precisa desconfiar de governantes que acenam para o complexo problema da segurança pública com soluções simples. É puro jogo de cena — regado com sangue.

Além da acusação do relacionamento espúrio com Vorcaro, Claudio Castro está sendo investigado também pela proximidade com o famigerado TH Joias, ex-deputado que perdeu o mandato e está preso por parceria com o Comando Vermelho, e Rodrigo Bacellar, ex-presidente da Assembleia Legislativa do Rio que tinha cumplicidade com TH. Dizendo claramente: Castro está na mira da PF pela proximidade com políticos ligados ao tráfico, que ele dizia combater.

É preciso destacar mais uma vez que o ex-governador do Rio tem direito à presunção de inocência e deve ser tratado como suspeito até que a Justiça o considere culpado.

É a mesma presunção de inocência que Castro negou aos homens fuzilados em outubro do ano passado no Alemão e cuja morte comemorou. 

https://iclnoticias.com.br/governador-era-o-verdadeiro-bandidao/

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