ONU abandona diplomacia, denuncia colapso dos direitos humanos e ataca potências

 

ONU abandona diplomacia, denuncia colapso dos direitos humanos e ataca potências

Alarmada por proliferação de conflitos, desmonte da democracia e opressão, ONU sobe o tom e faz alerta global 

Numa das declarações mais fortes nos últimos anos, o secretário-geral da ONU, António Guterres, abandonou o tradicional tom diplomático que marca seus discursos e lançou um alerta global: a democracia vive uma erosão e a lei está sendo suplantada pela força.

Segundo ele, os retrocessos na garantia de direitos fundamentais estão sendo registrados em todos os campos, ampliando o “desespero” de países inteiros.

Assombrada pelo desmonte de direitos básicos, invasões, proliferação de guerras e a volta do uso da força, a ONU decidiu subir o tom, na esperança de chamar a atenção internacional do momento crítico que o planeta vive.

Seu discurso ocorreu na abertura do Conselho de Direitos Humanos da ONU, em Genebra, nesta segunda-feira, num clima de tensão. O recado, porém, era principalmente para as principais potências. Guterres, que deixa o cargo neste ano, não poupou ataques contra líderes que passaram a usar pessoas como “moeda de troca”.

“Os direitos humanos estão sob ataque em larga escala em todo o mundo”, disse. Segundo ele, “o Estado de Direito está sendo suplantado pela força”.

Guterres ainda destaca que não se trata de um ataque camuflado. “Eles não vem das sombras. Nem de surpresa. Está acontecendo à vista de todos – e frequentemente liderado por aqueles que detêm o maior poder”, disse, numa referência indireta aos americanos, russos e chineses.

“Em todo o mundo, os direitos humanos estão sendo deliberadamente, estrategicamente e, às vezes, com orgulho”, lamentou.

Segundo ele, as consequências são “devastadoras”. Para Guterres, as vítimas sofrem duas vezes. Primeiro com a violência, a opressão ou a exclusão – e depois com a indiferença do mundo.

“Quando os direitos humanos caem, tudo o mais desmorona. Paz. Desenvolvimento. Coesão social. Confiança. Estabilidade”, disse.

Guterres fez um apelo para que haja um engajamento político para o fortalecimento dos direitos humanos em todos os lugares.

Os recados, porém, foram direcionados a alguma das principais potências no mundo.

Sem citar o nome de Donald Trump, Guterres fez uma dura crítica sobre a forma pela qual imigrantes estão sendo tratados. “Migrantes estão sendo assediados, presos e expulsos com total desrespeito aos seus direitos humanos e à sua humanidade”, disse. “Refugiados transformados em bodes expiatórios”, alertou.

Seu discurso ainda destaca como, às vésperas de completar quatro anos, a invasão russa da Ucrânia, onde mais de 15.000 civis foram mortos. “Já passou da hora de acabar com o derramamento de sangue”, defendeu.

No que se refere às ações de Israel, ele denunciou “as flagrantes violações dos direitos humanos, da dignidade humana e do direito internacional no Território Palestino Ocupado”. “A trajetória atual é clara, nítida e determinada: a solução de dois Estados está sendo descartada à luz do dia”, advertiu. “A comunidade internacional não pode permitir que isso aconteça”, defendeu.

Guterres destacou como vive-se, hoje, em um mundo onde “o sofrimento em massa é justificado, onde seres humanos são usados ​​como moeda de troca, onde o direito internacional é tratado como mero inconveniente”.

Seu alerta é de que, nessa situação, o que se registra é uma intensificação de guerras.

“Os conflitos se multiplicam e a impunidade se tornou contagiosa. Isso não se deve à falta de conhecimento, ferramentas ou instituições. É resultado de escolhas políticas. Essa crise de respeito aos direitos humanos não é um caso isolado”, criticou.

Ele também alertou sobre o fato de que as necessidades humanitárias “explodem”, enquanto o financiamento “entra em colapso”. “As desigualdades aumentam a uma velocidade alarmante. Países afundam em dívidas e desespero. O caos climático se acelera”, disse.

Guterres também revela que a tecnologia – especialmente a inteligência artificial – está sendo cada vez mais usada de maneiras que suprimem direitos, aprofundam a desigualdade e expõem pessoas marginalizadas a novas formas de discriminação, tanto online quanto offline.

“Em todas as frentes, aqueles que já são vulneráveis ​​estão sendo empurrados ainda mais para as margens”, constatou.

“E os defensores dos direitos humanos estão entre os primeiros a serem silenciados quando tentam nos alertar”, disse.

“Nessa ofensiva coordenada, os direitos humanos são as primeiras vítimas. Vemos isso no controle cada vez maior do espaço cívico. Jornalistas e ativistas presos. ONGs fechadas. Direitos das mulheres retrocedidos”, alertou Guterres.

O retrocesso é explícito em todas as frentes. “Direitos das crianças ignorados. Pessoas com deficiência excluídas. Democracias em erosão”, disse, condenando mais uma vez a violenta repressão aos protestos no Irã.

A lista dos abusos inclui ainda “comunidades LGBTIQ+ vilipendiadas, minorias e povos indígenas visados e comunidades religiosas atacadas”.

Ele também destacou “espaços online envenenados por desinformação e ódio – resultando em danos no mundo real”.

A dominação e a supremacia estão retornando

O discurso de Guterres foi seguido por outro alerta, desta vez por parte do Alto Comissário da ONU para Direitos Humanos, Volker Turk.

“O uso da força para resolver disputas entre e dentro de países está se tornando normalizado”, disse.

“Ameaças inflamatórias contra nações soberanas são lançadas indiscriminadamente, sem qualquer consideração pelas consequências que poderiam provocar”, alertou.

“As leis da guerra estão sendo brutalmente violadas. O sofrimento em massa de civis – do Sudão a Gaza, da Ucrânia a Mianmar – está se desenrolando diante de nossos olhos”, disse.

Ele conclui com uma constatação alarmante. “Os acontecimentos ao redor do mundo apontam para uma tendência profundamente preocupante: a dominação e a supremacia estão retornando”, disse.

“Se dermos ouvidos à retórica de alguns líderes, o que se esconde por trás dela é a crença de que estão acima da lei e acima da Carta da ONU”, lamentou. 

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