Panorama do voto evangélico, que está migrando, preocupa PL e anima PT
Panorama do voto evangélico, que está migrando, preocupa PL e anima PT
| BdF/Brasil de Fato |
A última rodada de pesquisa de intenção de votos da Quaest, divulgada na semana passada, revelou que Flávio Bolsonaro continua na frente na preferência dos eleitores declaradamente evangélicos, mas a diferença encolheu bastante.
Há três razões centrais para essa queda significativa de apoio político a Flávio Bolsonaro entre os que professam a fé evangélica.
1. Falta de confiança, de seriedade. Ao ser flagrado como amigo íntimo e próximo do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, preso por corrupção, o candidato do PL deixou cair a máscara de “higienista da cena política”. Nas pesquisas qualitativas que têm sido feitas sob encomenda das principais siglas partidárias – PT e PL – e por seus satélites na mesa do jogo eleitoral, mesmo que os pastores das igrejas de bairro peçam complacência com o filho 01 de Bolsonaro, a sensação de traição calou fundo em quem já andava ressabiado com outras revelações de corrupção do clã.
2. Ausência de projeto amplo de país. A base evangélica que se mobiliza todos os finais de semana nos templos ou nos círculos de leitura da bíblia percebeu – dizem as pesquisas qualitativas – que os Bolsonaro não lideram nenhum movimento de resgate do país. Mas, sim, formam uma organização focada exclusivamente em seus interesses, dissociados de agendas públicas e sociais mais ousadas. A única ressalva à família, nesse aspecto, quando o tema surge nas pesquisas, é à ex-primeira-dama Michele Bolsonaro. Ela tem boa imagem entre os que creem no verbo (bíblico).
3. O episódio “Dark Horse” catalisou as duas percepções que levavam desconfiança aos evangélicos. O filme hagiográfico encomendado por familiares e ex-assessores de Bolsonaro a um consórcio de produtoras, atores e roteiristas enrolados com empresas em paraísos fiscais que receberam dinheiro do liquidado Banco Master e se conectaram com emendas do Orçamento da União para pagar a empreitada pseudocultural é visto pelos crentes na profissão evangélica como mais um benefício ao clã bolsonarista. Ou seja, nada seria pelo todo; tudo é pelo particular, pela vida privada do ex-presidente e de seus filhos (que, aliás, odeiam a madrasta Michele Bolsonaro, adorada por eles).
Em razão dessas divergências, o Ministério Madureira, a segunda maior franquia da Congregação Geral das Assembleias de Deus (que possui algo em torno de 12 milhões de fiéis), declarou apoio a Ronaldo Caiado (PSD) na disputa presidencial e trabalha nas coxias de seus 15 mil templos espalhados pelo país para que Michele Bolsonaro seja a vice do ex-governador goiano. Esse também é o movimento e o desejo cada vez menos silencioso de Valdemar da Costa Neto, presidente do PL, e da própria ex-primeira-dama.
A Igreja Universal do Reino de Deus, do bispo Edir Macedo, detentora da concessão da TV Record e do controle político do partido Republicanos (ao qual está filiado o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas), está a um passo de liberar seu palanque nacional nos estados e se concentrar exclusivamente nas disputas para governos locais, Senado e Câmara dos Deputados.
Macedo, que é antes de tudo um empresário, enfrenta árdua luta para evitar a liquidação de seu banco – o Digimais.
Além disso, divergências em palanques locais vão ora afastando o Republicanos de apoiadores do PL de Flávio Bolsonaro, como ocorre no Distrito Federal, ora aproximando a sigla de Edir Macedo de satélites do PT de Lula, como ocorre em Pernambuco.
Em cenários assim, quando os interesses ser múltiplos, é melhor decretar que ninguém é de ninguém.
Com crise de liquidez necessidade de captação calculada em R$ 3 bilhões, o Digimais precisa encontrar um comprador de parte ou do todo de seu controle no mercado financeiro.
Macedo colocou a mão no próprio tesouro familiar e há dois meses capitalizou a instituição que integra seu grupo empresarial com R$ 825 milhões.
Foi demais para ele e era insuficiente para o tamanho do rombo. O BTG, banco de André Esteves, negocia a aquisição do Digimais. Porém, só o fará se tiver as bênçãos do governo federal – do atual e do futuro, seja quem for que estiver despachando no Palácio do Planalto em 6 de janeiro de 2027 (depois da posse do reeleito ou do eleito, marcada para 5/01/2027).
A IURD possui um rebanho de dois milhões de fiéis segundo o IBGE.
Contudo, Edir Macedo manda seus bispos afirmarem que suas profissões de fé chegam a 7 milhões de aficionados.
A Congregação Cristão Brasileira (CCB) é a segunda maior denominação evangélica nacional em quantidade de fiéis declarados – 4,5 milhões – mas possui uma postura discreta e distante da mídia, de redes sociais e de movimentos mais histriônicos de luta por pautas comportamentais.
A CCB é declaradamente neutra nessa eleição.
A Igreja Adventista, denominação à qual pertence o ministro do Supremo Tribunal Federal André Mendonça, relator das ações que investigam o Banco Master e as traficâncias do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, detém um cerca de 1,8 milhão de frequentadores assíduos de seus cultos em todo o país e já se proclamou “sem candidato”.
A neutralidade foi extremamente bem recebida no Palácio do Planalto e entre os estrategistas do PT.
Não só pela indicação de seriedade e higidez política no trabalho jurídico de Mendonça, mas também por consolidar o desejado afastamento de bispos e pastores dos palanques eleitorais na campanha desse ano.
Se não pode trazer para seu palanque a fidelidade das lideranças religiosas outrora bolsonaristas, o comando da campanha de Lula à reeleição trabalha pela neutralidade.
Jornalista, nasceu no Recife em 1968. Formou-se na Universidade Federal de Pernambuco em 1990. Entre 1988 e 2002, atuou nas principais redações de jornais e revistas do Brasil, destacando-se em Veja, O Globo e Época. Vencedor dos prêmios Esso e Líbero Badaró de Jornalismo e o Jabuti de Livro-Reportagem, é autor de Os Fantasmas da Casa da Dinda (1992, Ed. Contexto), As Duas Mortes de PC Farias (1995, Ed. Best Seller) além de Trapaça – Saga Política no Universo Paralelo Brasileiro (vol. 1, 2019, vol. 2, 2020, vol. 3, 2022), O Vendedor de Futuros (2021) e O Procurador (2024), estes cinco últimos livros pela Geração Editorial. É também roteirista e produtor de podcasts.
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