Lula defende "projeto estratégico" e investimentos "urgentes" em Defesa: "mundo está cheio de maulco"

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Lula defende "projeto estratégico" e investimentos "urgentes" em Defesa: "mundo está cheio de maulco"

“Pela primeira vez vou colocar a questão da defesa nacional num programa de governo", afirma o presidente

26 de junho de 2026, 12:59 hAtualizado em 26 de junho de 2026, 14:30 h


247 - O presidente Lula (PT) defendeu nesta sexta-feira (26) que o Brasil trate a Defesa nacional como prioridade estratégica e faça investimentos “urgentes” no setor para proteger o território, a população, as fronteiras e as riquezas do país. A declaração ocorreu durante a cerimônia de lançamento ao mar e batismo da Fragata “Cunha Moreira”, da Marinha do Brasil, em Itajaí, Santa Catarina.

No evento, Lula afirmou que o Brasil precisa construir um “projeto estratégico” para a Defesa nacional, com planejamento de longo prazo e recursos assegurados. Segundo o presidente, o país não pode discutir o tema apenas a partir da reposição de equipamentos deteriorados, mas deve definir que modelo de nação deseja construir e que estrutura militar será necessária para garantir sua soberania. 

“Não é possível um país do tamanho do Brasil, que tem 16,8 mil quilômetros de fronteira seca, que tem 8 mil quilômetros de fronteira marítima, que tem 5,7 milhões de quilômetros de mar sob a guarda do Brasil, que ainda não sabemos sequer a quantidade e qualidade da riqueza que nós temos no fundo do mar, que temos parte do nosso petróleo dentro da água, não é possível que a gente não coloque a defesa como uma coisa extremamente urgente e prioritária”, afirmou Lula.

O presidente disse que a conjuntura internacional reforça a necessidade de o Brasil ampliar sua capacidade de proteção. Ele citou o aumento dos conflitos no mundo e afirmou que o respeito internacional depende também da capacidade de um país defender seus próprios interesses. 

“Estamos vendo agora o mundo vivendo a maior concentração de conflitos da história depois da Segunda Guerra. Ninguém respeita quem não se respeita. Se não nos respeitarmos, quem vai? Quem vai levar a gente a sério, apesar da respeitabilidade que nossas Forças Armadas têm no mundo?”, questionou.

Lula afirmou ter tratado do tema em conversas com os comandantes das Forças Armadas e defendeu a necessidade de recursos para colocar em prática um plano nacional de Defesa. Para ele, o objetivo não é alimentar conflitos, mas assegurar que o Brasil esteja preparado para proteger seus 8,5 milhões de quilômetros quadrados e seus 215 milhões de habitantes.

“Tenho dito em todas as conversas que tenho com meus comandantes: nós precisamos construir um projeto estratégico. E a gente vai ter que ter dinheiro para colocar esse projeto em andamento, para que as pessoas saibam que nós não queremos briga com ninguém, não queremos invadir ninguém, não queremos guerra com ninguém. Mas nós estaremos preparados para defender nossos 8,5 milhões de quilômetros quadrados e 215 milhões de habitantes”, declarou.

O presidente também afirmou que pretende incluir a Defesa nacional em seu programa de governo para a próxima eleição. Segundo Lula, será a primeira vez que colocará o tema de forma explícita em uma plataforma eleitoral, com o objetivo de assumir publicamente o compromisso sobre o tipo de Defesa que o país deve ter.

“Fará parte do meu programa de governo a questão da defesa. Pela primeira vez vou colocar a questão da defesa nacional num programa de governo, que é para a gente assumir compromisso público com que tipo de defesa a gente vai querer nesse país”, disse.

Ao tratar do cenário internacional, Lula relembrou sua atuação na Assembleia Constituinte e afirmou ter votado pela não proliferação de armas nucleares com base no compromisso de desarmamento por parte dos países que já possuíam esse tipo de arsenal. O presidente criticou o fato de potências nucleares continuarem a produzir armas e citou também países que passaram a se armar nas últimas décadas.

“Eu fui constituinte e fui daqueles que votou pela não proliferação de armas nucleares. Porque tinha o compromisso de que quem tinha armas nucleares ia desativar. Alguém desativou? De lá para cá, o Paquistão se armou, a Coreia do do Norte, a Índia, a China e a Rússia e os Estados Unidos continuam fabricando cada vez mais armas nucleares”, afirmou.

Lula também defendeu o fortalecimento da indústria brasileira de defesa. Segundo ele, o setor chegou aos últimos anos em situação fragilizada, e o governo iniciou discussões desde 2023 para articular Forças Armadas, Ministério da Defesa, BNDES, Ministério da Ciência e Tecnologia e outras áreas em torno de uma política industrial voltada à soberania. 

“Até outro dia nossa indústria de defesa estava praticamente quebrada. E na primeira reunião que eu fiz em 2023 com os três comandantes, com o vice-presidente Alckmin, com o ministro José Múcio, o presidente do BNDES, a ministra da Ciência e Tecnologia, para discutir uma indústria de defesa nesse país”, afirmou.

O presidente disse que o Brasil precisa reconhecer sua dimensão geopolítica e seu papel na América Latina, além de ampliar a cooperação com países africanos. Para Lula, o oceano Atlântico deve ser visto como elo entre o Brasil e a África, e não como separação.

“Não é possível que a gente não tenha noção do nosso tamanho, da nossa importância na América Latina, que a gente não tenha noção que o mar não é uma divisa entre nós e a África. É o que nos junta à África. E o que a gente pode prestar de serviço de transferência de tecnologia para esses países. Esse é o papel do Brasil”, declarou.

Em um dos momentos mais enfáticos do discurso, Lula afirmou que não deseja guerra, mas que o Brasil não pode ser surpreendido por ameaças externas. Ele citou episódios históricos e mencionou declarações atribuídas ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre territórios estratégicos.

“Eu não quero guerra, mas também não quero ser pego de surpresa. Não quero constatar que eu não tenho nada… Tenho que me cuidar. Um belo dia, quando ninguém esperava, o Solano López, presidente do Paraguai, invadiu o Brasil, a Argentina e o Uruguai. Está cheio de nego maluco no mundo. Agora mesmo o presidente americano quer tomar a Groenlândia, o Canadá, quer tomar o Canal do Panamá… Onde nós estamos?”, disse Lula.

Ao final da fala sobre soberania, o presidente associou o lançamento da nova fragata ao início de uma nova etapa para o país na área de Defesa. “Isso é o começo de um país que vai assumir de fato o direito de ser soberano e de tomar conta do seu nariz”, afirmou.

A Fragata “Cunha Moreira” é a terceira embarcação do Programa Fragatas Classe Tamandaré (PFCT), considerado estratégico para recompor o Núcleo do Poder Naval da Marinha do Brasil. O programa integra a Nova Indústria Brasil (NIB), dentro da missão voltada ao desenvolvimento de tecnologias de interesse para a soberania e a defesa nacionais.

Com investimentos estimados em R$ 13,9 bilhões entre 2019 e 2030, dos quais R$ 10,5 bilhões estão vinculados ao Novo PAC, o Programa Fragatas Classe Tamandaré deve gerar cerca de 23 mil empregos ao longo de sua execução. A estimativa inclui 2 mil postos diretos, 6 mil indiretos e 15 mil induzidos. O programa tem execução física de 76% e já entregou à Marinha a Fragata “Tamandaré”, em agosto de 2024, e a Fragata “Jerônimo de Albuquerque”, em agosto de 2025.

O lançamento ao mar é uma das etapas centrais da construção naval. Durante a cerimônia, ocorre o tradicional batismo da embarcação, marcado pela quebra de uma garrafa de espumante no casco do navio. A entrega definitiva da Fragata “Cunha Moreira” ao setor operativo da Marinha está prevista para 2028, após a instalação de sistemas, armamentos e demais etapas internas.

As embarcações do programa são construídas no TKMS Estaleiro Brasil Sul pela Sociedade de Propósito Específico Águas Azuis, formada por Thyssenkrupp Marine Systems, Embraer Defesa & Segurança e Atech. O PFCT prevê a construção e incorporação de quatro navios militares de alta complexidade tecnológica para modernizar e ampliar a capacidade operacional da Marinha.

As fragatas terão deslocamento de 3.500 toneladas, 107 metros de comprimento, convés de voo, hangar para helicópteros, radares, sensores integrados e sistemas avançados de armas. Segundo o governo, o programa permitirá ao Brasil fortalecer a proteção da Amazônia Azul, área marítima com mais de 5,7 milhões de quilômetros quadrados, além de ampliar a capacidade de realizar operações de busca e salvamento e cumprir compromissos internacionais.

Além da dimensão militar, o programa busca estimular a nacionalização de sistemas avançados, a transferência de tecnologia e a qualificação de empresas brasileiras para atuar na produção, manutenção e modernização das embarcações ao longo de seu ciclo de vida. A iniciativa também deve ampliar a demanda sobre a cadeia produtiva nacional e fortalecer a indústria brasileira de defesa.

https://www.brasil247.com/brasil-soberano/lula-defende-projeto-estrategico-e-investimentos-urgentes-em-defesa

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