Há ligação entre Daniel Vorcaro e Bolsonaro?
Descubra as relações do banqueiro com figuras políticas
Por Iago Filgueiras*
Entre 2025 e 2026, o Banco Master se tornou manchete constante no noticiário do país. A instituição, comandada por Daniel Vorcaro, surgiu no mercado nacional em meados de 2019, ainda durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro (2019-2022). Ao longo dos anos seguintes, o Master viveu uma rápida ascensão, até investigações apontarem a existência de fraudes financeiras e resultarem na liquidação da instituição e na prisão de seu dono.
Nesse contexto, a relação de proximidade mantida pelo banqueiro com diversas figuras influentes da política nacional começou a chamar a atenção. À desconfiança somaram-se trocas de mensagens e listas de contatos extraídas do celular de Vorcaro, revelando uma rede que atinge o coração dos Três Poderes.
Com dezenas de personalidades que ocupam cargos de poder, dúvidas recaíram sobre o dono do Master e as figuras que mantiveram alguma relação com ele. Considerando o período de ascensão do banco, muita gente passou a se questionar sobre eventuais ligações entre Daniel Vorcaro e Bolsonaro (PL), dirigentes do Banco Central, parlamentares e outros nomes da política.
Com uma complexa rede de contatos, dezenas de nomes sob os holofotes e muitas questões sobre a extensão do caso Master, entender quais são as conexões de Daniel Vorcaro tem muito a revelar sobre as relações entre poder e dinheiro no Brasil.
Um breve resumo do caso Master
Antes de entender qual a relação entre Daniel Vorcaro e Bolsonaro, e a enorme lista de pessoas que estão associadas ao nome do banqueiro, é preciso entender o contexto do escândalo do Banco Master.
O caso revela um esquema de fraudes bilionárias, que veio a público após o início da Operação Compliance Zero, deflagrada pela Polícia Federal (PF) para combater um esquema de emissão de títulos de crédito falsos por instituições financeiras, após investigação solicitada pelo Ministério Público em 2024.
Mas, além dessa operação, o escândalo do Banco Master também apresentou indícios de conexão com outras frentes de investigação. Por isso, a instituição teve seu nome envolvido em diversos processos para apurar responsabilidades e eventuais práticas criminosas:
- Operação Compliance Zero (PF): apurando crimes contra o sistema financeiro e resultou na prisão de Daniel Vorcaro e outras pessoas ligadas a ele
- CPMI do INSS: investigando desvios em fundos de previdência social e com investigações que apontam para empresas ligadas ao conglomerado Master
- CPI do Crime Organizado: mirando o uso de empresas de fachada e o credenciamento irregular de instituições do grupo no crédito consignado federal e possíveis ligações com o crime organizado.
Com o desenrolar do caso e a deflagração da Operação Compliance Zero, Daniel Vorcaro chegou a ser preso em novembro de 2025. No entanto, ele foi solto poucos dias depois, passando a ser monitorado via tornozeleira eletrônica. O banqueiro voltou a ser detido em março de 2026, já na terceira fase da Compliance Zero.
Veja mais em: Banco Master: o que aconteceu? A linha do tempo completa do escândalo que conecta mercado, política e crime
Qual a ligação entre Daniel Vorcaro e Bolsonaro?
O caso do Banco Master atraiu a atenção nacional não apenas pelo tamanho do banco, mas pelo volume expressivo das supostas fraudes identificadas nas investigações.
As ligações entre Daniel Vorcaro e Bolsonaro se tornaram motivo de curiosidade justamente pela cronologia dos fatos: foi durante o governo do ex-presidente que o Master surgiu e iniciou seu processo de ascensão.
Os elos ministeriais entre Vorcaro e Bolsonaro
Entre os elos que podem conectar os nomes Daniel Vorcaro e Bolsonaro estão algumas figuras que ocuparam cargos ministeriais durante a gestão bolsonarista.
A ex-ministra da Secretaria de Governo (SECOM), Flávia Peres, é uma delas. Ela é casada com Augusto Ferreira Lima, um dos sócios de Vorcaro e também preso na Operação Compliance Zero.
No entanto, essa não foi a primeira vez em que Peres enfrentou questionamentos sobre eventuais ligações com escândalos políticos. Ela já foi casada com o ex-governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda — acusado de envolvimento em esquemas de corrupção.
Mas, no cenário atual, o que chama a atenção é que a conexão entre Flávia e o Banco Master vai além do par romântico: após deixar o governo em 2023, a política assumiu um cargo executivo de diretora no programa de sustentabilidade do Master.
Outra conexão relevante entre Daniel Vorcaro e Bolsonaro envolve João Roma, ex-ministro da Cidadania (2021–2022) e presidente do Partido Liberal (PL) na Bahia. Em 2026, Roma foi convocado para depor na CPI do Crime Organizado, no Senado, para esclarecer eventual relação entre o Banco Master e os empréstimos consignados realizados via Auxílio Emergencial. A operação ocorria por meio da empresa CredCesta, de propriedade do Banco Pleno — instituição ligada ao Master e ao empresário Augusto Lima.

Até 2018, CredCesta era o braço de crédito consignado da Ebal (Empresa Baiana de Alimentos S/A), que geria uma rede de supermercados públicos na Bahia. No entanto, a empresa passou para o controle do Master após a privatização da Ebal durante o governo de Rui Costa (PT) na Bahia.
Mais um nome que pode ser ligado a Daniel Vorcaro e Bolsonaro é o também ex-ministro da Cidadania, Ronaldo Vieira Bento (2022), que se tornou alvo de integrantes da CPMI do INSS por suposta ligação com o Banco Master. A justificativa da convocação foi a atuação do político durante a vigência do Auxílio Brasil no governo Bolsonaro, ajudando a abrir o mercado de consignado sobre benefícios sociais.
A questão é: após deixar o cargo, Vieira Bento se tornou administrador da Mettacard Administradora de Cartões e diretor do Banco Pleno S.A. Ou seja, o ex-ministro assumiu cargo administrativo em empresas que se beneficiaram com políticas adotadas durante sua gestão ministerial.
O apoio financeiro às campanhas eleitorais de 2022
Ainda na sequência de nomes do Centrão e da direita que orbitam personalidades em comum — Daniel Vorcaro e Jair Bolsonaro —, há um outro fato relevante.
Uma das pessoas também presas na Operação Compliance Zero foi o empresário Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro e suspeito de integrar um grupo ligado ao banqueiro e utilizado para monitorar e atacar desafetos políticos.
Zettel parece ser um grande incentivador da política nacional. Ele foi a pessoa física que doou os maiores montantes financeiros às campanhas eleitorais de Jair Bolsonaro (PL) e Tarcísio de Freitas (Republicanos) em 2022. O primeiro recebeu R$ 2 milhões; já o segundo, R$ 3 milhões.
A ascensão de Vorcaro e a gestão de Roberto Campos Neto no Banco Central
Em matéria publicada no ICL Notícias, o jornalista Cleber Lourenço abordou a terceira fase da Operação Compliance Zero em março de 2026.
Ex-servidores do Banco Central (BC) se tornaram alvo de mandados de busca e apreensão, reacendendo o debate sobre as decisões tomadas por Roberto Campos Neto, ex-presidente da instituição nomeado em 2019 por Jair Bolsonaro.
Segundo o jornalista, mesmo que o ex-presidente não tenha sido alvo direto das investigações, atos de sua gestão passaram a ser analisados. Foi durante o mandato de Campos Neto, em 2019, que Daniel Vorcaro conseguiu autorização para assumir o controle do antigo Banco Máxima, instituição que deu origem ao Master.

À época, o banqueiro já aparecia em investigações relacionadas a operações financeiras envolvendo fundos de investimento, embora o processo não tenha resultado em condenações.
O próprio banco Máxima já havia enfrentado acusações. Segundo denúncia do Ministério Público Federal (MPF), ex-gestores do banco teriam praticado gestão fraudulenta e apresentado dados incorretos ao BC.
O cenário atraiu críticas severas à gestão de Roberto Campos Neto, uma vez que foi sob seu mandato que Daniel Vorcaro obteve autorização para adquirir o antigo Banco Máxima. A transação ocorreu apesar de o banqueiro já figurar em investigações anteriores sobre operações com fundos de investimento.
A gravidade do caso ganhou novos contornos durante votação no STF para analisar a manutenção da prisão preventiva de Vorcaro. Na ocasião, o ministro André Mendonça revelou a existência de um grupo de mensagens que reunia o banqueiro e dois servidores do Banco Central: Paulo Sérgio Nogueira das Neves e Belline Santana. Esta última é suspeita de ter recebido pagamentos de Vorcaro.
Ainda sobre a compra do Banco Máxima por Vorcaro, uma reportagem exclusiva do ICL Notícias revelou que a aquisição teria sido feita com fundos vinculados ao Grupo Aquilla, que tinha o narcotraficante espanhol, Oliver Ortiz de Zarate Martin, como um de seus cotistas.
De acordo com a reportagem, o elo entre o narcotraficante e Daniel Vorcaro seria Benjamim Botelho de Almeida, operador do mercado financeiro apontado pela PF como sócio oculto de Vorcaro nos Estados Unidos.
Os amigos de Daniel Vorcaro no Centrão
Além de conexões com políticos que ocuparam pastas importantes do Executivo durante a gestão de Jair Bolsonaro e funcionários do Banco Central, Daniel Vorcaro parece ser uma pessoa de muitos amigos. Ao redor dele, orbitavam diversos parlamentares e figuras públicas ligadas ao Centrão.
Segundo o jornalista e colunista do ICL Notícias, Luís Costa Pinto, o presidente do União Brasil, Antônio Rueda, e o senador Ciro Nogueira (PP) são os “maiores amigos” de Daniel Vorcaro na política. À dupla, soma-se ainda o ex-presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP).
Ainda de acordo com Costa Pinto, foi por meio de Ciro Nogueira que o dono do Banco Master se aproximou do Banco Regional de Brasília (BRB), instituição financeira estatal administrada pelo governo do Distrito Federal, sob gestão de Ibaneis Rocha (MDB), que, em março de 2025, chegou a fazer uma proposta de aquisição do Master, barrada poucos meses depois pelo Banco Central.
Há também figuras que, embora não necessariamente relacionadas, são criticadas por não facilitar processos de investigação do caso Master, exigidos por parlamentares. Um deles é o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União). Em matéria publicada no ICL Notícias, o jornalista Chico Alves destacou que o senador tentou evitar a instalação de uma CPMI para apurar investimentos realizados pelo fundo dos servidores do Amapá, seu estado natal, no banco de Vorcaro.
O escândalo Caixa Asset em 2024
Em 2024, o Master ficou no centro de um escândalo envolvendo a Caixa Asset, braço de investimentos da Caixa Econômica Federal, criado em 2021, durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Na ocasião, três gerentes nacionais da Caixa Asset teriam sido demitidos após se posicionarem contra a compra de letras financeiras do Master no valor de R$ 500 milhões, alegando risco à reputação da empresa. A proposta teria sido feita pelo então presidente da Caixa Asset, Pablo Sarmento, que assumiu o cargo em 2023, após pressão de Arthur Lira (PP) sobre o governo federal ocupado por Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Com a repercussão do escândalo, o executivo foi destituído do cargo e a instituição chegou a ser presidida interinamente por Heitor Souza Cunha, sócio de Luciano Ferreira Cavalcante, ex-assessor de Lira e presidente do União Brasil de Alagoas e que, em 2023, foi alvo de operação para investigar um suposto esquema de desvio de dinheiro na compra de kits de robótica para a rede alagoana de ensino.

Ciro Nogueira e a “Emenda Master”
Na relação entre o Banco Master e o senador Ciro Nogueira, há ainda outro elemento que chama a atenção: uma emenda apresentada à Proposta de Emenda à Constituição que tramita no Congresso e trata sobre a autonomia do Banco Central.
No documento protocolado por Ciro, o senador estabelecia o aumento da cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) de R$ 250 mil para até R$ 1 milhão por CPF. Esse fundo público é responsável por devolver dinheiro aos investidores caso um banco vá à falência ou sofra intervenção do BC.

Na prática, a emenda era tão benéfica ao modelo de negócios do Banco Master, que chegou a ser apelidada pelo mercado financeiro de “Emenda Master”. Segundo Luís Costa Pinto, o banco “se alavancou vendendo CDBs a 150/120% do CDI, que é uma taxa de retorno quase impossível de ser cumprida por um gestor financeiro”. Ou seja, o aumento da cobertura do FGC ajudava — e muito — as atividades do banco de Daniel Vorcaro.
Em mensagens extraídas do celular de Vorcaro e obtidas pela CPMI do INSS, há um diálogo entre o banqueiro e sua ex-namorada, Martha Graef, celebrando a emenda proposta por Nogueira. O envio ocorreu às 19h44 do dia 13 de agosto de 2024, menos de duas horas depois da criação do documento da emenda no sistema do Senado. Em maio do mesmo ano, em mensagens privadas, Vorcaro chegou a classificar Nogueira como “um grande amigo de vida”.
À imprensa, a assessoria do senador afirmou que o político troca mensagens com centenas de pessoas e que esse tipo de interação não significa proximidade pessoal.
A possível conexão entre o Banco Master, o crime organizado e o Centrão
Com tantas frentes de investigação que esbarraram em práticas suspeitas do Banco Master, o caso passou a aparecer no radar de diversas frentes de trabalho. Segundo reportagem da Folha de S.Paulo, fundos de investimento suspeitos de relação com o esquema de fraudes atribuído a Daniel Vorcaro também foram mencionados em investigações que apuram a infiltração do Primeiro Comando da Capital (PCC) no mercado financeiro.
Como consequência, a CPI do Crime Organizado, instalada no Senado Federal, pediu a quebra do sigilo fiscal, bancário e telefônico de pessoas conectadas a Vorcaro e com possíveis relações com organizações criminosas. Um deles é Luiz Phillipi Mourão, conhecido como “Sicário”, aliado de Daniel Vorcaro que integrava “A Turma”, grupo de comunicação usado pelo banqueiro para monitorar e intimidar adversários.
O empresário Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, foi convocado pela CPI por suspeita de conexões com o Master e a Reag Investimentos, instituições identificadas como braços financeiros do PCC. É aí que surgem outros nomes possivelmente ligados a figuras do Centrão e também convocados pela CPI:
- Roberto Augusto Leme da Silva, o “Beto Louco”: apontado como responsável pela gestão de distribuidoras de combustíveis que lavariam dinheiro para o Primeiro Comando da Capital
- Mohamad Hussein Mourad, o “Primo”: considerado um dos principais operadores do esquema de lavagem de dinheiro do PCC, e que teria conexões com o Banco Master
Mas qual seria a ligação entre esses nomes e o Centrão? A resposta pode estar em uma reportagem investigativa publicada pelo ICL Notícias: o piloto de avião Mauro Mattosinho apontou que realizava o transporte de nomes como “Beto Louco” e “Primo”, além do presidente do União Brasil, Antônio Rueda, em viagens da empresa Táxi Aéreo Piracicaba (TAP).
Somado a isso, Roberto Augusto Leme da Silva e Mohamad Hussein Mourad apontaram que Rueda seria dono de aeronaves operadas pela TAP e que teria se interessado pelo ramo de negócios após viajar diversas vezes em jatinhos que pertenciam à dupla. As informações constam em material que faz parte de uma proposta de delação premiada enviada pelos empresários à Procuradoria-Geral da República (PGR) e ao Ministério Público de São Paulo (MP-SP).

Os colegas de vôo
Somado a toda essa proximidade, segundo um e-mail enviado em novembro de 2024 pela PrimeYou, empresa que geria bens ligados à Vorcaro, Antônio Rueda e Ciro Nogueira teriam voado em um helicóptero atribuído ao banqueiro.
O curioso é que Rueda teria dito ao portal Metrópoles, em março de 2026, que não tinha qualquer relação com Daniel Vorcaro, além de contatos sociais. No entanto, poucos dias depois, o dirigente partidário, que também é advogado e comanda o escritório Rueda & Rueda, revelou que advogou para o Master em diversas ocasiões.
Ibaneis Rocha (MDB) e a compra frustrada do Master pelo BRB
Se a relação que levou à tentativa de compra do Banco Master pelo BRB pode ter começado por intermédio de Ciro Nogueira, há muitas dúvidas que recaem sobre o papel do governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), na aquisição. Ligado à extrema direita e apoiador de Jair Bolsonaro nas eleições de 2022, o suposto envolvimento de Ibaneis no caso levou o Partido Liberal, principal força da base bolsonarista, a pressionar pela investigação do político.
Em depoimento prestado à Polícia Federal em dezembro de 2025, Vorcaro afirmou ter se encontrado com Ibaneis Rocha em algumas oportunidades, nas quais teriam discutido sobre a aquisição de seu banco pelo BRB, já que o governo do DF é o acionista majoritário da instituição. Por outro lado, o governador afirmou que não tratou sobre a compra do Master em nenhum dos quatro encontros que teve com Vorcaro.

O que chama a atenção é a relação próxima entre BRB e Master, já que a instituição injetou, entre 2024 e 2025, cerca de R$ 16,7 bilhões no banco de Vorcaro. Já em agosto de 2025, Ibaneis enviou à Câmara Legislativa do Distrito Federal uma proposta de compra do Master. Como o projeto foi apresentado em caráter de urgência, os deputados distritais teriam que priorizar a votação dentro de 45 dias, sob risco de paralisar as atividades na Casa.
Em uma semana, 14 deputados aprovaram o texto enviado por Ibaneis e ele foi sancionado. A operação de compra só foi barrada por ação do Banco Central. O curioso é a compra ter sido defendida pelo governo do DF, uma vez que o banco já enfrentava investigações no BC desde 2024.
Outro fato que chama a atenção são as reportagens revelando que o escritório Ibaneis Advocacia e Consultoria mantinha um contrato de R$ 38 milhões com o fundo Reag Legal Claims. O fundo é vinculado à gestora Reag, empresa fundada por João Carlos Falbo Mansur, também investigada por sua possível ligação com o Banco Master.
A Reag foi citada na Operação Carbono Oculto, deflagrada pelas polícias Federal e Civil de São Paulo em 2025. A investigação apurou um esquema de lavagem de dinheiro no sistema financeiro voltado para o Primeiro Comando da Capital (PCC), reforçando o cerco sobre as movimentações suspeitas que orbitam o conglomerado de Daniel Vorcaro.
Os filhos de Ibaneis Rocha na mira das investigações
Os filhos de Ibanéis Rocha, também acabaram por ter seus nomes envolvidos nas investigações relacionadas ao Banco Master. Conforme revelado pela coluna Reserva Exclusiva, da Revista Liberta, um duplex na capital paulista avaliado em R$ 32 milhões surgiu no horizonte dos investigadores que analisam a dispersão de patrimônio e lavagem de dinheiro de personalidades públicas que se envolveram de alguma forma nas fraudes financeiras promovidas pelo Banco Master e pela operadora Reag DTVM.
O imóvel teve negociações ligadas ao administrador e advogado Caio Carvalho Barros, filho do governador do Distrito Federal. Além dessa propriedade, o portal Vero Notícias revelou que também há suspeitas sobre um outro duplex, este localizado em Brasília.
João Pedro Rocha, de 21 anos e também filho de Ibaneis, também está tendo a vida empresarial analisada por investigadores. Em 2021, o jovem se tornou sócio, junto ao irmão, da empresa “Nação Rubro-Negra”, que passou a administrar as lojas do Flamengo no DF, semanas depois de o BRB firmar parceria comercial com o clube.
A Previdência nas mãos da direita — e do Banco Master
Entre os investidores do Banco Master, estão diversos fundos previdenciários pelo Brasil. Destinados ao pagamento de aposentadorias e outros benefícios a funcionários públicos locais, essas instituições investiram milhões em títulos do banco sem garantias do Fundo Garantidor de Crédito (FGC).
Entre eles, a Rioprevidência, comandada pelo Estado do Rio de Janeiro, sob a gestão de Cláudio Castro (PL), investiu mais de R$ 1 bilhão no Master entre 2023 e 2024, mesmo após alerta do Tribunal de Contas do Estado (TCE). A movimentação se tornou alvo da PF, que deflagrou a Operação Barco de Papel em 2026, por suspeita de fraudes e irregularidades.
Já no Amazonas, a Fundação de Previdência do Amazonas (Amazonprev), sob gestão do governo de Wilson Lima (União), manteve investimentos no valor de R$ 50 milhões em títulos do Master, mesmo com um relatório apontando riscos.
A Amapá Previdência (Amprev) investiu cerca de R$ 400 milhões em letras financeiras do banco comandado por Daniel Vorcaro. O fundo previdenciário é operado pelo governo amapaense, sob comando de Clécio Luís (Solidariedade).
Além das previdências estaduais, fundos de cerca de 14 municípios também investiram em títulos do Master. O Iprev, fundo dos funcionários municipais de Maceió, cidade governada por João Henrique Caldas (PL), investiu cerca de R$ 97 milhões em títulos do Master.
Veja a outros aportes:
- São Roque (SP) — R$ 93,15 milhões
- Cajamar (SP) — R$ 87 milhões
- Itaguaí (RJ) — R$ 59,6 milhões
- Aparecida de Goiânia (GO) — R$ 40 milhões
- Araras (SP) — R$ 29 milhões
- Congonhas (MG) — R$ 14 milhões
- Fátima do Sul (MS) — R$ 7 milhões
- Santo Antônio de Posse (SP) — R$ 7 milhões
- São Gabriel do Oeste (MS) — R$ 3 milhões
- Paulista (PE) — R$ 3 milhões
- Jateí (MS) — R$ 2,5 milhões
- Angélica (MS) — R$ 2 milhões
- Santa Rita D’Oeste (SP) — R$ 2 milhões
- Campo Grande (MS) — R$ 1,2 milhão
Outras conexões sob suspeita
A rede de contatos de Daniel Vorcaro no mundo político parece não ter fim. As mensagens recuperadas no celular do banqueiro após sua prisão pela Polícia Federal revelaram nomes de alto nível da administração pública em sua lista telefônica.
Para além dos nomes citados anteriormente, algumas outras personalidades também chamaram a atenção por aparentarem uma relação de maior proximidade com Vorcaro ou serem citadas nas investigações sobre o Banco Master.
Nikolas Ferreira e o jatinho de Vorcaro
O deputado federal Nikolas Ferreira (PL) e Pablo Gomes Almeida, ex-assessor do parlamentar e atual vereador em Belo Horizonte (MG), são alguns dos nomes que constam na agenda de contatos encontrada no celular do banqueiro. Em 2022, Nikolas ainda teria voado em um jatinho particular vinculado a Vorcaro, acompanhado do pastor da Igreja Lagoinha, Guilherme Batista.
Segundo o deputado, a viagem teria sido a convite para realizar agendas de campanha e o nome do proprietário da aeronave não era de seu conhecimento.

ACM Neto e o recebimento de R$ 3,6 milhões
Segundo dados obtidos pela CPMI do INSS após quebra de sigilo telefônico de Vorcaro, o ex-prefeito de Salvador e atual presidente do União Brasil, ACM Neto, é um dos contatos na agenda do banqueiro.
Segundo informações de matéria do jornalista Cleber Lourenço, do ICL Notícias, entre 2022 e 2023, a empresa A&M Consultoria Ltda., ligada ao ex-prefeito de Salvador, teria recebido R$ 3,6 milhões em transferências vindas do Master e da gestora de fundos Reag.

As conexões jurídicas de Daniel Vorcaro
Alguns nomes vinculados ao judiciário brasileiro também aparecem relacionados a Daniel Vorcaro. Entre eles está o ministro do STF, Dias Toffoli, inicialmente escolhido como relator do caso que pedia ao Supremo a abertura de uma CPI do Banco Master. No entanto, o tempo revelou que o ministro e Vorcaro tiveram os caminhos cruzados durante a vida.
Tornou-se de conhecimento público que Toffoli é sócio oculto da empresa Maridt, que anteriormente era proprietária do resort Tayayá, no Paraná. A questão é que esse empreendimento foi vendido para um fundo de investimento chamado Arleen, que tinha como gestor Fabiano Zettel, o cunhado de Vorcaro. Após pressão, Toffoli acabou declarando-se impedido de relatar o caso.
Esse não é o único ministro da Suprema Corte que teve seu nome envolvido no escândalo. Alexandre de Moraes também aparece em notícias e investigações ligadas ao caso Master.
Segundo O Globo, Moraes e Vorcaro teriam trocado mensagens de celular em 17 de novembro de 2025, data da primeira prisão do banqueiro. Segundo o jornal, nas mensagens, o empresário narrava negociações para tentar salvar o Master e o ministro respondia por mensagens de visualização única.
O STF afirmou que as mensagens teriam sido trocadas com outros contatos, que não o ministro Alexandre de Moraes, que, inclusive, afirmou que a tentativa de atribuir o conteúdo a ele “trata-se de ilação mentirosa no sentido, novamente, de atacar o Supremo Tribunal Federal”.
O nome da esposa de Alexandre de Moraes, a advogada Viviane Barci de Moraes, também aparece associado a Vorcaro. O escritório de advocacia dela teria firmado contrato com o Banco Master em 2024, prevendo o pagamento de até R$ 128 milhões em três anos. No entanto, o escritório afirmou se tratar de prestação de serviços advocatícios e, ainda, que nunca conduziu nenhuma causa para o banco no âmbito do STF, onde Alexandre de Moraes é ministro.
Outro nome ligado ao STF que se soma a essa história é o do ministro Kassio Nunes Marques, já que o Banco Master e a empresa JBS teriam repassado R$ 18 milhões à Consult Inteligência Tributária, empresa de consultoria que realizou pagamento de R$ 218,6 mil ao advogado Kevin de Carvalho Marques, filho do ministro e inscrito na Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) desde 2024. À imprensa, ele afirmou que o recebimento é lícito e oriundo do exercício profissional da advocacia.
Conexões à direita e à esquerda
Com presença marcante do Centrão em sua rede de contatos, o caso Master não se restringiu somente à citação de políticos e outras figuras associadas à direita. Alguns nomes da ala governista também foram mencionados em matérias jornalísticas e ganharam a atenção do público.
Segundo revelação da coluna de Andreza Matais, do portal Metrópoles, o escritório de advocacia do ex-ministro do STF, Ricardo Lewandowski, foi contratado pelo Master entre 2023 e 2025, recebendo um total de R$ 6,5 milhões. No entanto, quando assumiu o posto de ministro da Justiça do governo Lula, entre fevereiro de 2024 e janeiro de 2026, Lewandowski passou o comando do escritório à sua mulher e ao filho, além de ter suspendido seu registro na Ordem dos Advogados do Brasil (OAB).
Foi ainda durante a gestão do ministro que a Polícia Federal, subordinada ao Ministério da Justiça, iniciou a Operação Compliance Zero, que resultou na prisão de Vorcaro.
Ainda de acordo com Andreza Matais, o Master teria sido apresentado ao ex-ministro pelo senador Jaques Wagner (PT), já que o parlamentar era próximo ao ex-sócio de Vorcaro e ex-CEO do banco, o economista Augusto Ferreira Lima — também preso na Operação Compliance Zero.
O ex-ministro da Fazenda em governos petistas, Guido Mantega, também teria sido contratado pelo banco com uma remuneração de R$ 1 milhão mensais para ajudar nas negociações para venda do Master ao BRB, e teria sido o responsável por articular uma reunião fora da agenda oficial entre Vorcaro, Lula, Augusto Lima e o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo.
Segundo pessoas presentes na ocasião, Lula teria dito que todos os assuntos referentes à instituição deveriam ser tratados de forma técnica junto ao BC, e que não se envolveria no assunto.
O centrão na mão de Daniel Vorcaro e a disputa midiática
A rede de Daniel Vorcaro se mostrou complexa e muito bem articulada. Com conexões em diversas esferas do poder, o banqueiro teria contado com o apoio de figuras influentes para assegurar a efetivação de seus interesses econômicos. No entanto, o caso Master também mobiliza uma intensa disputa de narrativas em setores da imprensa tradicional, despertando críticas acerca de representações equivocadas.
Em coluna publicada no ICL Notícias, o jornalista Chico Alves criticou a postura de grandes veículos de comunicação sobre o caso. Segundo ele, há um esforço coordenado em parte da mídia para associar o escândalo à imagem do presidente Lula e ao Partido dos Trabalhadores (PT), enquanto figuras do Centrão e da extrema direita são colocadas em segundo plano, citando o exemplo de um PowerPoint exibido durante a programação da GloboNews dando destaque para possíveis conexões entre Lula e Vorcaro.
Posteriormente, a emissora se desculpou e reconheceu que o material estava incompleto e “não deixou claro o critério usado para a seleção dos nomes”.
O que desperta atenção, contudo, é a alta prevalência de nomes do Centrão supostamente ligados ao banqueiro, o que teria motivado a articulação de parlamentares para barrar a instauração de uma CPI no Legislativo.
A contradição apontada por Alves reside no fato de que o Banco Master floresceu e expandiu suas operações durante a gestão de Jair Bolsonaro. O principal argumento utilizado por setores da mídia para vincular Vorcaro ao atual governo é uma reunião fora da agenda entre Lula, Gabriel Galípolo e o banqueiro. No entanto, o encontro foi testemunhado por diversas pessoas e, na ocasião, o empresário não teria recebido o respaldo esperado ao solicitar ajuda ao governo federal.
O ponto central da disputa é que foi justamente sob a atual gestão do Executivo e a nova diretoria do Banco Central que as investigações contra as supostas fraudes do Master ganharam tração, contando com a atuação independente da Polícia Federal.
Já o jornalista Rodrigo Viana aponta que veículos, como a Globo, têm agido como um “tribunal de inquisição midiática”, selecionando quais nomes devem ou não ser expostos. Como exemplo dessa proximidade entre o poder financeiro e a mídia, Viana destaca que, em maio de 2024, Daniel Vorcaro foi o principal patrocinador de um evento organizado em Nova York pelo jornal Valor Econômico, veículo que pertence ao Grupo Globo.

Ainda há muito a descobrir
A pergunta sobre possíveis conexões entre Daniel Vorcaro e o bolsonarismo soma-se às dúvidas sobre a rede de influência que o banqueiro construiu com figuras proeminentes de Brasília — e segue, até o momento, sem uma resposta definitiva. O que já veio à tona, no entanto, é suficiente para indicar um escândalo que extrapola o sistema financeiro e atinge o núcleo das instituições brasileiras.
O que se revela não são apenas as relações pessoais de um banqueiro, mas o funcionamento de uma engrenagem em que o capital financeiro e o poder político se misturam, permitindo que interesses privados operem dentro e ao redor do Estado.
O caso expõe fragilidades na fiscalização e demonstra como diferentes esferas de poder podem se sobrepor para blindar esquemas específicos.
No dia 31 de março, o Instituto Conhecimento Liberta lança o documentário original “O Golpe do Banco Master”, reunindo a linha do tempo completa do caso com base em apuração independente — das investigações da PF às relações obscuras entre Vorcaro e nomes de grande peso da política nacional. A exibição será online e gratuita, seguida de debate ao vivo com Eduardo Moreira e a equipe de jornalistas do ICL.
*Estagiário sob supervisão de Leila Cangussu
https://iclnoticias.com.br/conhecimento/daniel-vorcaro-e-bolsonaro/
