Estrategista aliado do clã Bolsonaro manteve vínculos com cúpula trumpista
Estrategista aliado do clã Bolsonaro manteve vínculos com cúpula trumpista
Fernando Cerimedo, estrategista argentino ligado ao clã Bolsonaro, manteve vínculos com a cúpula do governo de Donald Trump. A revelação foi feita pela ex-companheira do articulador político, Nadia Beller e que, nos últimos meses, vem se recuperando de agressões que ela teria sofrido do próprio Cerimedo.
Nos últimos anos, o argentino teve um papel central na estratégia digital de campanhas no Brasil, Argentina, Honduras, Chile e Bolívia. No país, depois da derrota de Jair Bolsonaro em 2022, ele foi um dos artífices do questionamento das urnas eletrônicas e difundiu desinformação neste sentido.
Já vivendo nos EUA, Eduardo Bolsonaro ainda manteve contato com Cerimedo. Em julho, dias antes do lançamento oficial da campanha de Flávio Bolsonaro, o ex-deputado e o consultor argentino promoveram uma live na qual voltaram a questionar a credibilidade das urnas no Brasil.
Há poucos meses, porém, Cerimedo foi preso na Bolívia, depois da denúncia de Nadia Beller sobre uma suposta tentativa de assassinato de sua ex-companheira.
No início da semana, sem dar explicações, o governo de Donald Trump anunciou sanções contra o procurador-geral da Bolívia, Roger Mariaca, que conduz justamente as investigações contra Cerimedo. A juíza que decretou sua prisão também foi alvo de sanções do Departamento de Estado.
Mariaca denunciou uma ingerência dos EUA e garantiu que as sanções não irão forçar a Bolívia a abandonar as investigações contra Cerimedo. Além do processo de agressão, ele é alvo de uma investigação sobre um esquema de corrupção envolvendo o abastecimento de combustível.
Nesta semana, em suas redes sociais, Nadia Beller publicou fotos de Cerimedo com alguns dos nomes mais poderosos da estrutura de poder de Donald Trump. No título da postagem, uma provocação relacionada à criação do Escudo das Américas, a aliança militar da Casa Branca com a extrema direita regional:
É a luta pelo “Escudo das Américas” ou a proteção da rede MAGA?
Na postagem, ela mostra fotos de Donald Trump Jr. (filho de Donald Trump), Brad Parscale, Andy Rivas e Fernando Cerimedo. “Isso ganha enorme relevância quando colocada ao lado do que está acontecendo hoje na Bolívia”, explicou Nadia.
“É preciso desvendar os supostos negócios desses atores que instrumentalizam o movimento MAGA”, insistiu.
Nadia conta que apresentou ao Ministério Público áudios, conversas, fotografias e documentos “sobre a participação de Cerimedo em decisões da YPFB (a empresa de energia da Bolívia), incluindo a nomeação e a demissão de funcionários, além de informações relacionadas a combustível, ouro e outras operações”.
“Também apresentei áudios e conversas sobre a FUTURA, empresa ligada ao fornecimento de combustível para a Bolívia. Nessas conversas, fala-se em comissões para Brad Parscale, sócio de Cerimedo e ex-chefe de campanha de Trump”, explica.
Para ela, não se trata apenas de uma ingerência de Cerimedo em campanhas eleitorais. “Estamos falando de uma estrutura política internacional que, após chegar ao governo, aparece vinculada a negócios empresariais questionáveis na Bolívia”, denunciou.
Segundo ela, portanto, as sanções anunciadas pela Casa Branca devem ser entendidas nesse contexto.
“Enquanto tudo isso é investigado, o governo de Donald Trump revoga o visto do Procurador-Geral da Bolívia, Róger Mariaca, e o acusa de corrupção relacionada ao narcotráfico, sem apresentar, até o momento, qualquer denúncia ou prova”, apontou.
“Cerimedo não está sendo investigado por apenas um fato. Entre os fatos denunciados e investigados figuram, em primeiro lugar, a tentativa de feminicídio, além de possíveis casos de encobrimento do narcotráfico, corrupção, lavagem de dinheiro, usurpação de funções e outros delitos”, insistiu a ex-companheira.
Nadia alerta que a situação é grave. “Agora surge outro elemento ainda mais delicado”, disse.
“Enquanto se pressiona o Procurador-Geral, ministros do governo começam a falar sobre possíveis processos e extradições”, explicou.
“Um deles é Ernesto Justiniano, sobre quem também recaem questionamentos e elementos que justificam investigação em relação a fatos ligados ao narcotráfico e ao acobertamento de contrabandistas de ouro. Trata-se de uma defesa institucional ou de uma forma de pressão ou chantagem contra quem está investigando?”, questiona.
Ela destaca como o vice-presidente boliviano Edmand Lara apresentou um áudio atribuído a Fernando Cerimedo, no qual se ouve o argentino negociar a cobertura ou proteção para voos de pequenas aeronaves em Beni por “US$ 15.000 mensais por aeronave, além de mencionar a coordenação com o coronel Cabrera e com a NAABOL”.
“A conversa trata de múltiplas aeronaves e de operadores que aguardavam o sinal para começar a voar. Lara apresentou esse material à opinião pública e anunciou seu encaminhamento ao Ministério Público para investigação”, disse.
Nadia alerta que, se existe uma estrutura de proteção ao narcotráfico, por qual motivo apenas o procurador geral foi sancionado pelos EUA.
Ela também destaca o fato de que, no Peru, Juan Carlos Núñez Matos, juiz da Primeira Vara Especializada em Assuntos Constitucionais de Lima, foi o único sancionado por Trump.
“Ele havia proferido uma decisão favorável à Cosco Shipping Ports Chancay Peru, empresa de capital chinês que opera o megaporto de Chancay”, contou. “O Departamento de Estado não explicou publicamente qual conduta concreta do juiz motivou a restrição de seu visto”, disse.
Nadia questiona quais seriam os critérios que o governo de Donald Trump está utilizando para decidir quem entra nesta lista de sancionados.
“Pois, se a explicação envolve corrupção e narcotráfico, é preciso explicar por que o visto do Procurador-Geral — que investiga uma estrutura com essas características — é revogado e, ao mesmo tempo, o que acontece com todos os outros atores vinculados a essas investigações”, alertou.
Para ela, os “lobbies internacionais ligados a esse ambiente político MAGA já estão sendo investigados na Bolívia”. “O problema é que, agora, a liderança desse ambiente político é quem está apontando o dedo para o investigador”, alertou.
Sua avaliação é de que há um esforço para fazer com que o procurador seja demitido. “Não se pode remover um Procurador-Geral mediante pressão política, sem provas contundentes e sem o devido processo legal, justamente quando a instituição que ele dirige investiga uma estrutura dessa magnitude devido a denúncias envolvendo essa mesma estrutura”, disse.
“Porque, nesse caso, não estaríamos falando apenas de uma destituição. Poderia transformar-se em um golpe institucional contra o Ministério Público para impedir o avanço de uma investigação”, insistiu.
Ela ainda concluiu: “Estão perseguindo quem investiga ou protegendo parte da rede?”
Cruzando fronteiras com refugiados, testemunhando crimes contra a humanidade, viajando com papas ou cobrindo cúpulas diplomáticas, Jamil Chade percorreu mais de 70 países. Com seu escritório na sede da ONU em Genebra, ele foi eleito o segundo jornalista mais admirado do Brasil em 2025. Chade foi indicado 4 vezes como finalista do prêmio Jabuti. Ele é embaixador do Instituto Adus, membro do conselho do Instituto Vladimir Herzog e foi um dos pesquisadores da Comissão Nacional da Verdade.
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