Ex-comandante da Aeronáutica: Escolha de generais para Defesa alimentou trama golpista
Ex-comandante da Aeronáutica: Escolha de generais para Defesa alimentou trama golpista
Carlos Baptista Júnior, brigadeiro e ex-comandante da Aeronáutica, se tornou durante o julgamento da tentativa de golpe de Estado, em 2025, testemunha central de como o ex-presidente Jair Bolsonaro planejou permanecer ilegalmente no poder. Em setembro, ele lança “Eu disse não! – Uma trincheira antigolpista”, pela editora Autêntica, obra na qual ele detalha a experiência durante o governo Bolsonaro.
Em entrevista ao ICL Notícias, ele disse que o general Paulo Sérgio, ex-ministro da Defesa, foi “fraco” ao não resistir às pressões do ex-presidente e analisou que a escolha de generais, na ativa ou recém-passados à reserva, para ocupar a liderança do Ministério da Defesa, alimentou a trama golpista. Além disso, Carlos Baptista Júnior reiterou a afirmação de que estava presente quando o general Marco Antonio Freire Gomes, ex-comandante do Exército, disse a Jair Bolsonaro: “Se o senhor fizer isso (seguir com a minuta golpista) vou ter que lhe prender”.
Confira a entrevista:
ICL Notícias — O senhor abriu o livro falando sobre o dia em que foi à Polícia Federal para prestar um depoimento. É uma curiosidade que muitas pessoas tiveram desde o momento em que o depoimento veio à tona: por que só naquele momento?
Brigadeiro Baptista Júnior — Quando passei o comando, no dia 2 de janeiro, mudei para um apartamento de um amigo na Asa Sul. Acompanhei o 8 de janeiro tendo a visão dos helicópteros sobrevoando e, logicamente, pela televisão. Vi que aquilo era algo muito grave e, imediatamente após aquilo muitos desses fatos foram incluídos nos inquéritos que haviam sido abertos em 2019. E então, eu não estava preparado para receber aquela intimação. Mas eu sabia que ia acontecer uma análise de todos esses fatos e que eu certamente estaria envolvido.
O senhor teve vontade de procurar a Polícia Federal ou a Procuradoria-Geral da República antes daquele momento, ou realmente só esperou ser chamado?
Eu esperei ser chamado. Foi quando se abriu a petição 12.100, né? Que estava ligada a um dos inquéritos abertos lá atrás, em 2019.
Mas, enfim, como ex-comandante da Aeronáutica e como cidadão brasileiro, o senhor não teve vontade de denunciar tudo isso antes daquele momento?
Eu já previa que isso ia acontecer. Talvez, por isso, nunca tive a iniciativa de procurar uma autoridade policial para fazer uma denúncia espontânea.
É que surgiu um questionamento sobre o momento em que isso veio à tona, porque as pessoas não o conheciam. O senhor é uma pessoa discreta. O general Freire Gomes também. Então, quando surgiram os dois depoimentos, o do senhor e o dele, lá em março de 2024 — um ano e pouco depois de todos os eventos —, ficou a dúvida se os senhores falaram só porque foram chamados pela Polícia Federal ou se foi realmente uma responsabilidade assumida com o Estado brasileiro ao revelar tudo aquilo.
Há muita gente que faz julgamentos a partir do seu próprio ponto de vista, da sua percepção. Até hoje temos pessoas que nos acusam de termos prevaricado por não termos dado ordem de prisão ao presidente. Quem diz isso teria que estar lá dentro. É muito difícil, hoje, do ar-condicionado, do fato já resolvido, fazer esse tipo de julgamento, né? Isso passou. A nossa decisão foi tomada e a história evoluiu, como sabemos.
Há algum momento que o senhor destaca ao longo do seu livro em que se sente a evolução da escalada golpista? Há algum momento que o senhor marca como aquele em que teve certeza de que se tentaria um golpe de Estado?
Hoje eu conheço muito mais do que conhecia naquela época. Mas, pela minha percepção ao vivo dos fatos, o que mais me chamou a atenção foi a participação do presidente. O primeiro fato que me chamou a atenção foi a presença dele no aniversário do Exército, em frente ao Forte Apache — o quartel-general do Exército —, numa manifestação que pedia intervenção militar. O presidente subiu na carroceria de uma viatura para participar da manifestação. Aquilo não foi bom.
Algum tempo depois, quando o general Fernando ainda era ministro da Defesa, houve na Praça dos Três Poderes, uma manifestação contra o STF e outras demandas de parte da população. Eu sempre tomo muito cuidado ao falar da população e do povo, porque muita gente está sequestrando o que é o povo.
E o presidente fez um sobrevoo de helicóptero — era o helicóptero da Força Aérea, camuflado, não o branco dele, com a porta aberta, da foto do dia seguinte. Era ele, com o general Fernando, sobrevoando a manifestação. Posso citar a escolha de um ministro militar após outro no Ministério da Defesa, e o desfile de blindados da Marinha em frente ao Palácio do Planalto.
Hoje, depois de tudo que li, percebo que muitos jornalistas acham que o presidente Bolsonaro já assumiu com um espírito, ou uma estratégia de longo prazo, de permanecer no poder, ganhando ou não as eleições. Eu sempre discordei disso, embora respeite essa visão. Mas foi crescendo, né? O 7 de Setembro na Avenida Paulista… Eu fui lutando para demover essa ideia o tempo todo. Onde vi que realmente existia alguma coisa foi no dia 14 de dezembro, quando a minuta foi apresentada aos três comandantes.

Brigadeiro, o senhor também acha que essa opção de indicar generais para o comando do Ministério da Defesa contribuiu para que esse processo golpista?
O Ministério da Defesa foi criado em 1999, a exemplo de todos os países do mundo, para estabelecer o controle civil sobre a instituição militar. E aqui eu não estou falando de a pessoa ser civil ou militar — apesar disso importar. Nos Estados Unidos, por exemplo, você pode colocar um militar, mas desde que ele esteja há sete anos na reserva, porque tirar um general, um almirante ou um brigadeiro quatro estrelas que estava na reserva até o mês passado e colocá-lo como ministro da Defesa — muito dificilmente ele terá uma visão homogênea das três forças em todos os aspectos: de emprego, de prioridade orçamentária e de visão operacional.
Nos Estados Unidos, a pessoa precisa ficar sete anos na reserva para poder assumir o cargo. Aqui, tivemos Joaquim Silva e Luna, que é muito meu amigo — hoje prefeito de Foz do Iguaçu —, um excelente oficial. Não estou julgando a capacidade de nenhum deles, mas tivemos quatro oficiais-generais do Exército, de quatro estrelas, seguidamente como ministro da Defesa.
Acho que isso não é bom. E acho que vem de uma visão do presidente Bolsonaro: desde a criação do Ministério, ele fez campanha contra, com ataques ao presidente Fernando Henrique. Ele via isso como uma estratégia para tirar os militares das decisões de primeiro e segundo escalão, o que eu discordo completamente.
O senhor relata no livro que se sentiu muito desconfortável na reunião de acompanhamento da apuração do primeiro turno da eleição de 2022 dentro do Ministério da Defesa. E, um pouco antes, também conta que ocorreram inúmeras reuniões ao longo de 2022, sempre com o mesmo tema da questão eleitoral. Ainda que o senhor só tenha tido certeza da tentativa do golpe no dia 14, já sentia, antes disso, que essa mistura entre política e Executivo estava criando esse clima golpista?
Não tenho dúvida. Comento no livro que, principalmente, após 31 de março de 2022, quando o general Braga Netto se desincompatibilizou para ser candidato a vice-presidente na chapa do ex-presidente Jair Bolsonaro e assumiu o general Paulo Sérgio, o tema básico do Ministério da Defesa foi o que forçou as Forças Armadas a se envolverem nesses temas.
O trabalho do general Paulo Sérgio, durante todo o tempo em que foi ministro, foi muito dedicado ao processo eleitoral. Isso certamente não faz parte das atribuições das Forças Armadas, embora elas sempre possam ajudar no processo eleitoral — como o ITA, a Abin ou a área de TI da Polícia Federal ajudavam, e como todos os órgãos dos partidos também ajudavam.
O problema é que houve uma ligação, ou uma condição imposta pelo presidente — essa é a minha percepção, com base no que ele disse — de que só reconheceria o resultado se fosse aprovado pelas Forças Armadas. E aí foge demais do papel institucional das Forças Armadas.
Ao mesmo tempo em que havia essa pressão sobre o relatório das Forças Armadas — quer dizer, na medida em que a conclusão do trabalho feito pelas Forças Armadas era de que não havia nada de errado, mas também se sentiu obrigado a dizer que não podia afirmar que não achou erro nenhum —, o senhor poderia falar um pouco sobre essa pressão que houve para a emissão daquele relatório?
Bem, durante esse período tivemos três presidentes do TSE: primeiro o ministro Fachin, depois Barroso e, por último, Alexandre de Moraes. Os três ministros abriram a possibilidade de as Forças Armadas se aprofundarem no sistema, né? E aí tínhamos, de um lado — e eu nunca vi dolo nisso —, a necessidade de os militares, se fossem participar de algum tipo de fiscalização, se aprofundarem muito rapidamente num sistema que não é simples.
Então o Ministério da Defesa começou a criar demandas para conhecer e, digamos, melhorar ou fechar portas para um possível acesso não autorizado ao sistema. E o TSE, por sua vez, estava espremido pelo tempo. Quando chegou o segundo turno, o relatório não foi feito; depois do primeiro turno, foi cobrado pelo TCU, e o Ministério da Defesa não entregou. Conto no livro que, entre não dar nenhuma informação sobre o primeiro turno e dar todas as informações correndo o risco de ainda haver algum erro, eu achava que existia uma possibilidade intermediária.
Cheguei a sugerir ao ministro da Defesa para fazer algumas audiências públicas. Isso não foi aceito. A comissão estava um pouco reticente em fazer um relatório final do primeiro turno, e assim fomos até o dia nove. Então, se você pegar o período após o segundo turno — desde a primeira reunião com o presidente Bolsonaro, quando ele se manifestou por dois minutos, ali no Alvorada, sobre o segundo turno, até o dia nove, quando o relatório foi entregue —, foi um clima muito tenso, né? Tivemos aquelas apresentações do argentino Fernando Cerimedo e outras tantas descobertas — entre aspas — de fraudes. Isso tudo foi muito cansativo e exigiu bastante trabalho de checagem, e nós checamos: a equipe de fiscalização checou todas as descobertas.
No dia nove, foi apresentado o relatório final dizendo que não havia sido detectado, em todos os processos de fiscalização, qualquer desvio ou imprecisão. No mesmo dia nove, o TSE agradeceu publicamente e ratificou que as Forças Armadas não haviam encontrado nada e que estavam apoiando a lisura do processo.
Quando chega o dia dez — isso é público, foi mencionado no julgamento do STF, e o próprio ministro Paulo Sérgio disse que se arrependia disso — ele envia o que vou chamar de réplica: um documento público ao TSE dizendo que, embora tivessem mandado um relatório no dia anterior afirmando que não encontraram nada, isso não queria dizer que não pudesse ter havido irregularidade. Isso foi muito ruim, e a partir daí o clima ficou bem pior, a partir do dia 11.

O senhor relata desde o primeiro depoimento que deu à PF que, em certo ponto dessas discussões, o general Freire Gomes chegou a dizer ao ex-presidente Jair Bolsonaro algo como “se o senhor continuar assim, eu vou ter que prendê-lo”. Isso também aparece no seu livro. O que o senhor acha que aconteceu para que o próprio general Freire Gomes recuasse dessa afirmação?
Juliana, não é uma frase simples de se esquecer. Como tenho dito, o general é uma pessoa muito polida, de excelente trato, mas ele sabia que era o comandante do Exército, né? As pessoas distorceram a frase que tenho relatado — foi exatamente a frase que escutei.
Não foi voz de prisão, não foi dita em tom de ironia, tampouco em tom de ameaça. Foi dentro de uma conversa institucional da cúpula militar com o presidente, que começava a se exaltar. Acho que a declaração dele na Polícia Federal vai bem nesse sentido. E deixo aqui registrado que, até hoje, eu e o general Freire Gomes somos muito amigos e temos contatos periódicos — isso não abalou nossa amizade.
Estávamos discutindo possibilidades de estados de exceção, como o que foi usado para tirar os caminhões que bloqueavam as estradas. E foi isso, a partir do dia 11: estávamos discutindo a possibilidade de estado de sítio, estado de defesa. E já havíamos colocado para o presidente, naquela mesa, desde o primeiro dia: “Se o senhor tem alguma intenção de decretar um estado de exceção, já está na hora — ou já estamos atrasados — para chamar aqui o vice-presidente, o presidente do Senado, o presidente da Câmara. Este não é um assunto que se discuta apenas com o ministro da Defesa e os comandantes das Forças.
“Cadê o ministro da Justiça? Cadê o Advogado-Geral da União?” Foi dentro desse contexto de discutir uma hipótese que o general disse ao presidente, no depoimento à Polícia Federal, algo como: “Se o senhor fizer isso sem os pressupostos e sem o processo adequado, vou ter que prendê-lo.” Então, acho que é uma frase forte demais para um ouvinte presente esquecer.
O senhor acha que ele sofreu alguma pressão? O senhor próprio sofreu alguma pressão entre o depoimento da PF, em 2024, e o do STF, em 2025?
Bem, vou falar apenas por mim, ok? Eu não sofri qualquer pressão oficial, nem de pessoas envolvidas nas ações penais, certo? Por que o general fez isso, eu não me arriscaria a analisar — essa é uma pergunta que deve ser feita a ele. Mas mantemos uma amizade muito boa até hoje. Quanto aos motivos que levam o general a falar de uma maneira ou de outra, essa é uma percepção que vocês têm — digo vocês porque o próprio ministro Alexandre de Moraes falou isso, ao ouvi-lo lá no STF. Isso não me cabe avaliar.
Vamos falar da mudança de comportamento do general Paulo Sérgio, ex-ministro da Defesa. Ao longo das nossas conversas — já entrevistei o senhor anteriormente, me parece — e também pelos depoimentos, fiquei com a impressão de que havia uma posição próxima, mais ou menos alinhada, entre o senhor, o general Freire Gomes e o general Paulo Sérgio. Mas, em algum momento, isso muda, e resulta na reunião do dia 14, em que o general Paulo Sérgio chega com a minuta golpista. O que pode ter ocorrido?
Coloco no livro que, desde o início, quando nos envolvemos com as comissões de Transparência Eleitoral, éramos um grupo de cinco: os três comandantes, o chefe do Estado-Maior Conjunto, general Laerte, e o general Paulo Sérgio. Em determinado momento, o general Laerte parou de frequentar essas reuniões. Aquilo me incomodou, embora eu saiba que as atribuições do chefe do Estado-Maior Conjunto são inúmeras. Inicialmente, achei que ele pudesse estar em viagem, mas logo depois vi que não era isso — que ele havia sido dispensado daquele grupo. Levei isso ao general Paulo Sérgio e recebi uma resposta que não me deixou confortável.
Só soube, agora, ao escrever o livro, que a desculpa que o general Paulo Sérgio deu foi que o afastamento dele fora por sugestão ou solicitação dos comandantes de Força. Fiquei muito incomodado. Perguntei ao general Freire Gomes: “Você solicitou o afastamento do Laerte daquelas reuniões?” Ele disse que não. Então não sei qual foi a razão — por que houve essa iniciativa do general Paulo Sérgio de afastá-lo — e isso hoje me deixa com uma dúvida muito grande.
Depois, passo para a reunião de 5 de julho — ele também já falou sobre isso durante seu depoimento no STF, sobre a maneira como se referiu, em voz alta, a “linha de contato” e a “avançar sobre o inimigo”. Acho que foi apenas uma colocação inadequada da parte dele. Acho que ele estava se referindo às demandas para melhorar o sistema de fiscalização, diante da impossibilidade de o TSE, tão próximo da eleição, colocar em teste todas as urnas que achávamos que poderiam melhorar o processo. E acho que ele se expressou de maneira inadequada, mas eu não achava que aquilo representasse uma vontade dele de dar, ou apoiar, um golpe de Estado.
Poderia representar uma vontade de permanecer no cargo, mas não através do apoio a um golpe. Isso foi evoluindo: percebi o desconforto dele com o desfile de blindados da Marinha; e em todas as nossas reuniões no Ministério da Defesa. Sua participação foi sempre no sentido de tentar demover o presidente Bolsonaro de fazer algo diferente de deixar o Palácio da Alvorada e entregar o cargo.
Até que chegamos ao 14 de dezembro, e eu lamento essa característica que ele apresentou, um comportamento de dubiedade entre reprovar qualquer ato ilegal do presidente Bolsonaro e, ao mesmo tempo, apresentar para nós uma minuta de golpe, né? E lamento porque acho que ele não era um golpista.
Ele apresentou para nós uma minuta de golpe, com o objetivo, segundo ele — e podemos acreditar ou não —, de tentar uma unanimidade nas Forças Armadas. Mas foi muito grave, por qualquer razão: se tivéssemos dito sim… Então é isso que trago para dentro do livro: essa dubiedade entre o comportamento dele e algumas de suas decisões.
O senhor nunca mais teve contato com ele depois?
É muito difícil falar isso de um ex-companheiro cearense, como eu, sabendo o quanto ele teve que se esforçar para chegar a comandante do Exército e ministro da Defesa, pelos próprios méritos. Mas acho que ele foi fraco na hora de falar para o presidente “pare aqui”. E era simples assim.
E o senhor não teve mais contato com ele depois do governo, ou mesmo ao longo do processo em que ele estava sendo julgado? Nunca mais? Ou teve?
Tive um contato. Fomos receber, de um grupo de oficiais da reserva em Fortaleza, uma homenagem — não sei precisar a data. Encontrei com ele num fim de semana em Fortaleza, e participamos juntos dessa cerimônia, em homenagem a nós dois e a várias outras pessoas. Foi a última vez.
Mas vocês não chegaram a conversar sobre nenhum desses assuntos?
Quando o processo foi aberto, eu nunca mais conversei com nenhum deles.
O senhor ouviu falar que o general Paulo Sérgio estaria arrependido de não ter tentado uma colaboração premiada para resolver sua participação — quer dizer, assumir a parte dele, mas sem arcar com coisas que não seriam exatamente da responsabilidade dele?
Acho que, num inquérito e num processo sobre um fato tão sério, que exige uma resposta imediata de tanta gente, faço uma crítica: por exemplo, participei de todas as oitivas, e nunca ninguém perguntou ao general Paulo Sérgio algo que poderia ter relação com o que você está falando, sobre ele ter se arrependido de não ter feito a delação premiada.
Nenhum advogado do general Paulo Sérgio, nem o Ministério Público ou ministro do STF, fez a ele a pergunta que me parecia que um dos treze deveria fazer: como essa minuta chegou às suas mãos? Quem lhe entregou? Ou seja, nenhuma das partes — nem a acusação, nem a defesa, nem os juízes — perguntou isso. Isso poderia ser um atenuante, por exemplo, porque não acho que aquilo tenha partido dele.
O general Freire Gomes olhou a minuta, leu, e, no depoimento, disse que ela era semelhante à que foi apresentada na reunião do dia 7 de dezembro, da qual eu não participei, e também semelhante à que foi encontrada na casa do Anderson Torres. E jamais perguntaram ao Paulo Sérgio, pelo menos oficialmente, quem lhe entregara aquela minuta. Acho que isso poderia ter sido um atenuante para ele, se ele tivesse querido falar.

O senhor acha que hoje ainda vivemos uma tentativa de golpe de Estado? Como o senhor vê essa interferência dos Estados Unidos? E o senhor teme uma nova escalada golpista neste ano?
Não, não vejo. No mundo ideal, deontológico, do dever-ser, cada país deveria respeitar integralmente os problemas internos dos outros. Logicamente, isso não existe, né? Há a guerra ideológica — hoje tenho muito medo dessas classificações de esquerda ou direita —, mas as guerras ideológicas levam a blocos ideológicos que tentam também dominar áreas fora do seu território nacional.
Então, a participação de políticos brasileiros tentando influenciar eleições, por exemplo, dos países vizinhos, ocorre há muito tempo, né? Em todos os matizes políticos. E isso é indesejável. Posso citar um caso aqui, para não parecer que estou sendo parcial: a tentativa de apoio do presidente Lula nas eleições da Argentina, e também a dos Estados Unidos na própria Argentina — um lado pela direita, outro pela esquerda. No mundo ideal, isso não deveria ser feito, mas, no mundo político como ele é, isso acontece. Já a participação física de pessoas dos Estados Unidos nessas eleições, eu não acredito, e não vejo a menor possibilidade de um movimento golpista para apoiar qualquer coisa.
Acho que deixamos bem claro que as Forças Armadas não vão se envolver nesse tipo de quebra da legalidade. Essa geração, pelo menos, está cada vez mais distante de todo processo golpista e de tantos movimentos da nossa história republicana. E o que tem que acontecer é o que digo no último capítulo do livro: nós somos os vilões e as vítimas do nosso próprio destino. Tudo começa no voto.
Estamos vendo hoje uma campanha eleitoral de dois blocos populistas que sequer colocaram na mesa um plano de governo, né? Estão indo com as bolhas — verdadeiras ou falsas — daqueles que os apoiam ou os repelem. Mas não acho que haverá qualquer interferência além do que já se observa de qualquer país externo aqui, nem dos Estados Unidos.
O senhor acha que esse processo fortaleceu as Forças Armadas?
A curto prazo… Acho que o processo em si, os fatos em si, fortalecem as Forças Armadas. Outra coisa é a percepção das Forças Armadas — ou seja, uma coisa é que, hoje, as Forças Armadas estão mais fortes, mais cientes de suas atribuições constitucionais; os mais novos viram, nas decisões dos três comandos, uma postura legalista, orientada pela Constituição e pelas leis. Outra coisa é a fortaleza das Forças Armadas: isso não está necessariamente se refletindo, a curto prazo, no grau de confiança que a população tem nelas.
A confiabilidade das Forças Armadas tem um pico de alta no início do governo Bolsonaro, e, a partir dali, vem caindo — e agora teve uma leve recuperação. E, a longo prazo, sempre tivemos, em relação às Forças Armadas, uma desconfiança por parte daqueles que tiveram algum tipo de restrição aos governos militares, ao golpe de 64. No início do livro, não faço essa distinção entre golpe, movimento e revolução — cada um desses nomes serve para não cumprir a lei, e são dados de acordo com as intenções e preferências de cada um. Mas o governo militar, de 64 a 81, trouxe para as Forças Armadas uma desconfiança de parte da população, principalmente da parte mais à esquerda do espectro. O que aconteceu agora foi que não só os revolucionários de esquerda, mas também os reacionários de direita, passaram a culpar as Forças Armadas pelo não golpe, ou por não terem mantido o presidente Bolsonaro no poder.
O que dissemos foi que não haveria uma quebra constitucional — não à manutenção, na Presidência da República, do candidato que perdeu, dentro da regra do jogo estabelecida. E não estou dizendo que não existam ainda muitos crimes eleitorais no Brasil: comunidades pressionadas pela milícia ou pelo narcotráfico, quilombolas, indígenas, áreas mais distantes da fiscalização. Isso não quer dizer, em momento algum, que não aceitar um golpe nos ligue diretamente a qualquer outro governo.
As Forças Armadas não tinham a intenção de dar um recado de que estão ligadas ao governo A, B ou C. O recado foi: dissemos não ao golpe. Mas isso não significa que concordamos com todos os desmandos, com toda a corrupção, com todos os desvios do nosso país. Isso é secular, e temos que encontrar uma maneira de sair disso. No livro, sugiro que comecemos a pensar em sair dos populismos, que são, antes de mais nada, egoístas — não visam o bem comum.
O que levou o senhor a escrever um livro para contar sua história?
Eu sempre tive vontade de escrever um livro, mas nunca havia chegado a faísca — não tinha tocado meu coração, né? Nessas doze horas em que fui muito bem recebido na Polícia Federal, por todos, pelo delegado Fábio — foi um clima de cortesia, mas também, logicamente, um clima de inquérito; aquilo não era uma reunião de amigos, era um clima de inquérito, em que tive que manter a concentração durante quase doze horas, muito já se sabia, tendo em vista a delação do tenente-coronel Cid —, quando terminou, por volta de uma e meia da manhã, dois agentes bem mais novos do que meus filhos, numa conversa mais informal, de cinco ou dez minutos, disseram: “Brigadeiro, o que estamos vendo aqui, o que já sabemos, o que já apuramos, o que o senhor acaba de contar — isso devia ficar como ensinamento para as gerações futuras.”
Aquilo ficou como uma semente no meu coração. Algum tempo depois, assistindo a um programa de televisão, o Andrei Roman, presidente da Atlas Intel, apresentou duas pesquisas que havia feito sobre o tema “golpe de Estado”. A primeira, feita entre 6 e 9 de janeiro de 2023 — lembrando que o 8 de janeiro está no meio desse período —, trouxe números assustadores: 39,7% da população não acreditava que Lula tivesse tido mais votos do que Bolsonaro; 37% achava que, se o presidente Bolsonaro tivesse lançado mão de algum artifício para não passar o governo ao presidente eleito, isso seria aceitável e não seria interpretado, por esses 37%, como um golpe de Estado.
E o terceiro ponto é que, dois anos depois — e aí já estávamos em meio à Ação Penal 2008, que julgou o Núcleo 1, no qual estava o presidente Bolsonaro —, ou seja, já tínhamos conhecimento de muitas coisas que haviam ocorrido, já tínhamos os testemunhos do Ministério Público e da defesa de cada um, uma nova pesquisa mostrou que ainda 30% da nossa população achava que um golpe de Estado seria aceitável. Isso me pareceu muito preocupante, e eu me perguntei o que poderia fazer para discutir isso.
Fico muito contente de ter conseguido chegar ao final desse livro — não é fácil escrever um livro de 240 páginas com responsabilidade, elegância, fatos, provas e análises. É bem mais difícil do que uma agressão feita num grupo de WhatsApp, ou uma análise leviana numa rede social. E a última pergunta que me fazem, sobre isso, é por que lançá-lo no período pré-eleitoral.
Primeiro, porque eu não podia escrever e publicar enquanto estava na ativa. Segundo, porque também era desaconselhado publicar um livro durante o período das ações penais no STF — ficaria muito estranho eu publicar logo depois de ter sido testemunha. E terceiro, porque precisei de tempo para escrever. Não é um livro para defender A ou B, nem para fazer qualquer propaganda eleitoral.
Formada pela UFSC com mestrado no CPDOC da FGV-Rio. Foi repórter especial do jornal O Globo e colunista do portal UOL. É apresentadora do podcast "A vida secreta do Jair" e autora do livro "O negócio do Jair: a história proibida do clã Bolsonaro", da editora Zahar, finalista do prêmio Jabuti de 2023.
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