Envolvimento da família Bolsonaro com Vorcaro escancara a engrenagem da corrupção no Brasil

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Envolvimento da família Bolsonaro com Vorcaro escancara a engrenagem da corrupção no Brasil



O escândalo do Banco Master revela como os ultra-ricos e a extrema direita se associam para moldar a política, mostrando que a raiz da corrupção no Brasil está fincada no sistema capitalista.


A revelação recente do Intercept Brasil de que Daniel Vorcaro e sua fortuna estavam por trás do filme “Dark Horse”, produzido pela família Bolsonaro para contar, de maneira bastante enviesada, a história do ex-presidente condenado Jair Bolsonaro, causou um alvoroço no Brasil. Flávio Bolsonaro, que horas antes havia dito ser mentira, tentou moldar a narrativa, fingindo se tratar de mero apelo a um financiador privado qualquer para a realização de um projeto familiar.

Mas uma mensagem que diz “irmão, estou e estarei contigo sempre” não é trocada em simples transações financeiras. Essa nova etapa do escândalo Bolsomaster demonstra quão promíscua é a relação entre os ultra-ricos brasileiros e a extrema direita que insiste em roubar o povo, enquanto prega que Deus e o Brasil estão acima de todos.

A direita deturpa seu histórico de corrupção

Uma das vitórias políticas da direita brasileira foi a inserção no senso comum de que a esquerda rouba e é corrupta. É fato que há escândalos de corrupção também por representantes políticos de esquerda, desde a corrupção mais leviana de um parlamentar que se apropria de fundos públicos para si próprio, até esquemas mais elaborados de troca de favores e resolução de conflitos políticos através de liberação orçamentária. Mas a blindagem que a direita construiu para si não passa de uma narrativa cada vez mais frágil que esconde o quão enraizada está a corrupção no seu meio.

Um mito histórico e uma confusão sobre a base da corrupção são bem explorados pela direita para manipular a opinião pública. O primeiro se trata de uma ilusão de que durante o regime ditatorial militar iniciado com o golpe de 1964 não havia corrupção. Popularmente, propagam que os militares eram (ou ainda são) moralmente idôneos, incapazes de roubar, e que seu único interesse sempre foi zelar por ordem e progresso no Brasil.

Os próprios ditadores brasileiros investiram nesse ufanismo – como é praxe de ditadores fascistas que se escondem atrás do ultranacionalismo e ideias abstratas de unidade nacional – e representantes da direita conservadora e autoritária se munem desses sentimentos para eliminar dúvidas e questionamentos sobre seus afazeres.

Não se pode indagar sobre os interesses dos autoritários, já que tudo que fazem seria em nome do estado-nação. Qualquer visão contrária seria sinônimo de traição. Mas o que chamam de patriotismo, nacionalismo e amor ao Brasil sempre foi seletivo, voltado aos interesses de grupos específicos, tanto que não deveria causar estranhamento a obsessão dos mesmos com os Estados Unidos e o imperialismo.


É característica histórica do ufanista autoritário de estados pós-coloniais rogar por golpes e intervenções estrangeiras, crendo que uma força maior lhe concederá autoridade absoluta para moldar toda uma nação de acordo com os interesses financeiros e políticos de seus grupos. É um nacionalismo excludente que manipula a ideia de povo para, ao fim, governar apenas com uma elite de escolhidos e iguais.

Seu projeto depende de explorar e oprimir para se sustentar e é por isso que odeiam tanto os movimentos indígenas, negros, feministas e LGBT. Juntos, eles demonstram a complexidade de experiências de exclusão e violência entre as classes subalternas. É também por isso que odeiam propostas para a redução da jornada de trabalho. Mais tempo livre para o trabalhador é também mais tempo para se organizar e para se formar politicamente. Aumenta o risco de que o trabalhador brasileiro aprenda, por exemplo, que a ditadura militar foi um período altamente corrupto de nossa breve história como nação. 

O negacionismo da corrupção na ditadura se dá por várias razões, mas uma delas seria de que vários militares morreram pobres, então como seriam corruptos? Essa visão simplista e completamente falsa é levantada por figuras como o senador Omar Aziz, do PSD do Amazonas, buscando esconder o quanto práticas ilegais e relações duvidosas entre os gestores do estado e grande burguesia faziam parte do cotidiano da ditadura.

A documentação histórica demonstra que o aumento do aparato estatal antidemocrático também abriu espaço para o pagamento de propinas e esquemas de favorecimento a empresários nos grandes projetos e operações do regime.

Relações espúrias entre o público e o privado

O apagamento do histórico de corrupção da direita e de regimes autoritários também serve ao falso diagnóstico da origem da corrupção. É muito fácil atribuí-la a um problema moral e mais ainda ao suposto tamanho gigantesco do estado. Neoliberais argumentam convenientemente que a esquerda prefere um estado gigantesco para facilitar a apropriação de recursos, mas, como a teoria é uma coisa e a prática é outra, a maioria dos neoliberais gostam do estado, desde que seja reduzido à sua função de facilitar o lucro e a concentração de renda.

Mecanismos de investigação e transparência democrática são rechaçados, frequentemente atribuindo métodos de participação social a “populismo” (palavra empregada de maneira esvaziada). Estado de bem estar social? Estado bem gerido para suprir necessidades do povo? Estado que garante justiça fiscal? Nada disso é bem-vindo para a direita, seja ela neoliberal ou desenvolvimentista.

O que sobra é o aparato do estado gerido ao lado da iniciativa privada, que nos empurra à privatização, mesmo quando diz fazê-la em nome do “desenvolvimento” – como já elaborei anteriormente nesta coluna. Se há imposto, que empresários possam se apropriar do seu uso para investimentos em setores que eles pretendem explorar. Ademais, em nome de uma visão torta de segurança pública, defendem a presença do estado nas periferias e espaços populares, pois estado bom é aquele que reprime e controla a população, nunca combatendo o crime na sua raiz, pois precisa do medo para justificar seu autoritarismo.


https://www.intercept.com.br/2026/05/21/bolsonaro-vorcaro-engrenagem-corrupcao/

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