Mauro Vieira: EUA queriam ‘capitulação’ e interferir no processo de Bolsonaro

 


Mauro Vieira: EUA queriam ‘capitulação’ e interferir no processo de Bolsonaro

Chanceler afirma que Washington exigiu abertura irrestrita de setores da economia e vinculou a redução das tarifas à interrupção da ação contra o ex-presidente
16/07/2026 | 15h00 

O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, afirmou nesta quinta-feira (16) que os Estados Unidos exigiram uma “capitulação” do Brasil durante as negociações para evitar o tarifaço sobre produtos brasileiros e tentaram interferir no processo contra o ex-presidente Jair Bolsonaro. Segundo o chanceler, a ameaça de elevar as tarifas para 50% teve motivação política e foi usada como forma de pressionar o governo brasileiro, embora a medida anunciada pelos Estados Unidos tenha fixado uma sobretaxa de 25% para parte dos produtos brasileiros.

A declaração foi dada um dia após o governo norte-americano anunciar a aplicação da tarifa de 25% sobre produtos brasileiros, resultado da investigação conduzida com base na Seção 301 da legislação comercial dos Estados Unidos.

Em declaração à imprensa, Vieira afirmou que o governo brasileiro manteve mais de 30 reuniões presenciais, virtuais ou por telefone com autoridades norte-americanas desde março de 2025, em níveis presidencial, ministerial e técnico. Segundo ele, foram 11 contatos com o secretário de Estado, Marco Rubio, e com o representante de Comércio dos Estados Unidos, Jamieson Greer, além de reuniões entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump.

“O Brasil está, portanto, negociando com os Estados Unidos desde antes do tarifaço original, anunciado em 2 abril de 2025.”

Segundo o ministro, a carta enviada por Donald Trump ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 9 de julho de 2025, que ameaçava impor tarifas de 50% aos produtos brasileiros, evidenciou a motivação política da medida.

“E foi justamente nessa carta – em que o Presidente Trump ameaçou o Brasil com tarifas de 50%, caso o processo contra o ex-Presidente da República não fosse imediatamente interrompido – que foi dada a instrução ao Representante de Comércio dos Estados Unidos para que iniciasse a investigação sob a Seção 301 contra o Brasil.”

Vieira afirmou que, desde o início das negociações, o governo brasileiro buscou dialogar sobre todos os temas apresentados pelos Estados Unidos. Segundo ele, porém, Washington fez exigências consideradas inaceitáveis.

“Claramente, o que incomoda o governo dos Estados Unidos é o fato de o Brasil não ter se curvado às pretensões desmedidas e às demandas irrazoáveis apresentadas durante o curso das negociações.”

O chanceler afirmou que uma das exigências era a abertura “total, irrestrita e exclusiva” de setores da economia brasileira aos Estados Unidos, sem qualquer contrapartida para os produtos nacionais.

“Cito, como exemplo, demandas de abertura total, irrestrita e exclusiva aos Estados Unidos de setores inteiros da economia brasileira, sem qualquer contrapartida para os produtos brasileiros. Em outras palavras, exigiam uma capitulação.”

Vieira também criticou declarações publicadas pelo secretário de Estado americano, Marco Rubio, sobre as tarifas impostas ao Brasil.

“Nesse sentido, as declarações do Secretário de Estado Marco Rubio veiculadas na madrugada de hoje nas redes sociais a respeito das tarifas adotadas contra o Brasil são inaceitáveis e ofensivas ao povo e ao governo brasileiros.”

Na sequência, acrescentou:

“Rubio ataca, de forma grosseira e arrogante, o Chefe de Estado de um país amigo.”

O ministro também rebateu os argumentos apresentados pelos Estados Unidos para justificar a investigação comercial contra o Brasil. Segundo ele, as críticas ao Pix e à política ambiental brasileira não têm fundamento.

“As alegações e declarações de autoridades americanas sobre o PIX são descabidas. O PIX é uma infraestrutura pública de pagamentos criada pelo Banco Central e está disponível a todas as instituições financeiras que atuam no Brasil. Não é sério falar em competição desleal gerada pelo PIX.”

Em relação ao desmatamento, afirmou:

“As acusações sobre desmatamento também são absurdas. Desde 2022, reduzimos significativamente o desmatamento na Amazônia e no cerrado.”

Vieira também voltou a defender o histórico da relação comercial entre os dois países. Segundo ele, os Estados Unidos acumularam superávit de US$ 424 bilhões em bens e serviços com o Brasil nos últimos 15 anos e, em 2025, 76% das importações americanas entraram no Brasil sem pagamento de imposto de importação, incluindo oito dos dez principais produtos exportados pelos Estados Unidos ao mercado brasileiro.

O chanceler afirmou ainda que o governo brasileiro participou de todas as etapas da investigação conduzida pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), apresentou duas defesas formais e participou de consultas governamentais em Washington. Apesar disso, disse que a decisão americana ignorou os argumentos apresentados por Brasília.

“Todas as alegações dos norte-americanos para justificar a aplicação de tarifas não têm lastro na realidade.”

https://iclnoticias.com.br/economia/mauro-vieira-eua-capitulacao-tarifaco/

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