‘Não fizemos ajuste fiscal em cima dos pobres’, diz Haddad ao defender legado na Fazenda
Em entrevista ao ICL Notícias
1ª edição, Haddad falou sobre
o descompasso entre os
dados econômicos e a
percepção da população
O ex-ministro da Fazenda e pré-candidato do PT ao governo de São Paulo, Fernando Haddad, afirmou, em entrevista exclusiva ao ICL Notícias 1ª edição, que a queda do poder aquisitivo da população brasileira começou ainda no governo Michel Temer e se aprofundou durante a gestão de Jair Bolsonaro.
Segundo ele, a política econômica adotada nesse período promoveu um ajuste fiscal concentrado na base da pirâmide social, com impacto direto sobre trabalhadores de menor renda.
“Houve um ajuste fiscal em cima dos mais pobres, sem reajuste real do salário mínimo e sem correção da tabela do imposto de renda”, disse.
“Tivemos que pagar os calotes”
Haddad também destacou que o início do terceiro mandato do presidente Lula foi marcado pela necessidade de recompor contas públicas fragilizadas.
De acordo com ele, o governo herdou um cenário fiscal deteriorado após medidas adotadas em 2022, incluindo o adiamento de pagamentos de precatórios e mudanças tributárias que impactaram estados.
“Tivemos que pagar os calotes no primeiro ano de governo. Isso envolveu cerca de R$ 120 bilhões”, afirmou.
Mudança na lógica do ajuste fiscal
Ao defender sua gestão no Ministério da Fazenda, Haddad argumentou que o governo atual alterou a lógica do ajuste fiscal, deixando de concentrar esforços sobre a população de baixa renda.
Segundo ele, medidas como o aumento real do salário mínimo e a ampliação da faixa de isenção do imposto de renda foram centrais nesse processo.
“Passamos a fazer um ajuste fiscal não mais em cima dos pobres”, disse.
O ex-ministro destacou ainda que a nova faixa de isenção do IR, que beneficia quem ganha até R$ 5 mil, retirou da tributação mais de 70% dos brasileiros.
Melhora de indicadores
Para equilibrar as contas públicas, Haddad afirmou que a equipe econômica optou por revisar benefícios fiscais considerados ineficientes.
Segundo ele, houve transparência na divulgação desses incentivos e corte de subsídios que não apresentavam justificativa econômica relevante.
O ex-ministro também citou indicadores que, segundo ele, demonstram melhora no cenário econômico, como inflação controlada, queda do desemprego e aumento da renda média.
Desinformação e percepção econômica
Haddad avaliou que há um descompasso entre os dados econômicos e a percepção da população, fenômeno que atribui, em grande parte, à disseminação de desinformação nas redes sociais. “O nível de desinformação hoje é gritante”, afirmou.
Para ele, a chamada “guerra de narrativas” tem impactado a forma como a população interpreta indicadores econômicos, criando um ambiente de desconfiança mesmo diante de dados positivos.
Escala 6×1
O ex-ministro da Fazenda abordou a proposta do fim da escala 6×1 em discussão no Congresso durante entrevista exclusiva ao ICL Notícias 1ª edição. Ele afirmou que o debate não deve se restringir à desoneração de empresas.
“Não dá para resolver a questão da escala 6×1 apenas desonerando empresas; é preciso olhar para o trabalhador, que é a mola da economia, e garantir que ele não seja explorado”, disse.
Sem mencionar o nome de Tarcísio de Freitas, ele criticou a visão do atual governo de São Paulo, que, segundo ele, favorece o capital em detrimento do trabalhador e da sociedade, defendendo políticas que equilibrem crescimento econômico e justiça social.
“O governador demonstra pouca preocupação com o trabalhador; ele privilegia exclusivamente o capital, sem se preocupar com quem mantém a economia funcionando.”
Eleições em São Paulo e crítica à gestão estadual
Na entrevista, Haddad também comentou o cenário eleitoral em São Paulo, onde aparece atrás do atual governador, o bolsonarista Tarcísio de Freitas, nas pesquisas de intenção de voto.
Apesar disso, afirmou que a disputa está em aberto e defendeu maior escrutínio sobre a gestão estadual.
Segundo ele, temas como saúde, educação, segurança pública e privatizações devem ganhar centralidade no debate eleitoral.
“A cobertura da gestão do governo do estado é muito frágil. Vamos levar esse debate ao eleitor”, afirmou.
Violência contra a mulher: SP lidera feminicídio
Haddad também comentou a situação de violência contra a mulher no estado, que lidera o país em casos de feminicídio.
Ele criticou a redução de recursos para políticas públicas voltadas à proteção das mulheres e a falta de ações preventivas, destacando a necessidade de educação, conscientização e programas especializados para enfrentar o problema.
“Não há prevenção. Nenhuma política pública de prevenção foi implementada no estado. Se não envolver educação e conscientização, esses indicadores não vão cair”, disse.
Sabesp e privatizações
O pré-candidato posicionou-se contra a privatização da Sabesp, companhia de saneamento e abastecimento do estado, e criticou a condução do atual governo em contratos de concessão de água e esgoto, afirmando que medidas como essa aumentam custos e pioram a qualidade dos serviços prestados à população.
“Não devia privatizar. Eu defendi veementemente em 2022 que a Sabesp não fosse privatizada, porque a experiência internacional mostra que a privatização do saneamento não dá certo”, frisou Haddad.
“O governador disse que ia estudar, mas três meses depois anunciou a privatização. Ele não estudou; se tivesse estudado, poderia ter feito um contrato diferente com a nova concessionária”, apontou.
“Privatizar é impor um custo alto para as pessoas que dependem desses serviços e não tinham outra alternativa. É algo que precisa de foco e responsabilidade.”
Transporte e pedágios
Haddad apontou que a privatização das linhas do CPTM e do Metrô e os altos pedágios estaduais oneram trabalhadores que dependem do transporte diário. Segundo ele, São Paulo se tornou um “pedágio político”, sem foco nas necessidades reais da população.
“O pedágio imposto nas estradas obriga o trabalhador a pagar um custo que muitas vezes não tinha, porque não há alternativas viáveis para chegar ao trabalho”, disse.
Educação e escolas cívico-militares
O ex-ministro criticou o modelo de escolas cívico-militares, defendendo que a gestão escolar seja organizada por professores, alunos, famílias e comunidade. Ele destacou iniciativas de expansão de institutos federais e programas de educação profissional como exemplos de políticas eficazes.
“Nunca vi um educador defender militar dando aula. Tirar um militar da rua para gerir uma escola que ele nunca estudou vai piorar a educação”, apontou.
“Vá na França, Inglaterra, Estados Unidos… em nenhum lugar do mundo escolas cívico-militares melhoraram a educação. É uma ilusão vendida para as pessoas”, disse.
https://iclnoticias.com.br/economia/haddad-defender-legado-na-fazenda/
