Como a China se preparou para conter Trump

 

Jamil Chade

Cruzando fronteiras com refugiados, testemunhando crimes contra a humanidade, viajando com papas ou cobrindo cúpulas diplomáticas, Jamil Chade percorreu mais de 70 países. Com seu escritório na sede da ONU em Genebra, ele foi eleito o segundo jornalista mais admirado do Brasil em 2025. Chade foi indicado 4 vezes como finalista do prêmio Jabuti. Ele é embaixador do Instituto Adus, membro do conselho do Instituto Vladimir Herzog e foi um dos pesquisadores da Comissão Nacional da Verdade.


Como a China se preparou para

conter Trump

Estratégia da Casa Branca é estrangular o acesso dos
chineses à energia. Mas Pequim passou anos se
preparando para esse momento
15/04/2026 | 05h30

Quando os primeiros mísseis americanos foram disparados contra o Irã, em 28 de fevereiro, diplomatas e observadores comentaram que, de fato, as explosões tinham como alvo um outro lugar do planeta: a China. Foco central da política externa de Donald Trump, o abastecimento de petróleo para a economia chinesa passou a ser um elemento estratégico no esforço dos EUA para conter o crescimento de Pequim.

Mas, para analistas ouvidos pelo ICL Notícias em Pequim, Hainan e Shenzhen, a cúpula do governo de Xi Jinping tinha plena consciência de que um dia essa guerra poderia ocorrer e que uma das estratégias dos EUA seria a de controlar passagens fundamentais para os suprimentos de energia para a China. E, por isso, passou anos se preparando para o cenário que, agora, acabou se confirmando.

O impacto na economia chinesa é real, assim como nas exportações, que já registraram uma desaceleração. Mas, na última década, a segunda maior economia do mundo acumulou de forma discreta um verdadeiro sistema de defesa nacional: a diversificação de suas fontes de energia.

Enquanto colocava bilhões de dólares em investimentos em inovação para o desenvolvimento de alternativas energéticas, a China ordenou a criação de uma vasta reserva de petróleo com um volume em estoque que é mantido em sigilo absoluto.

Nos últimos dias, a resiliência da economia chinesa tem causado irritação entre os membros da administração americana. Scott Bessent, secretário do Tesouro, acusou a China de estar acumulando petróleo e, portanto, abalando o fornecimento no mercado global.

Já o chanceler russo Sergey Lavrov concluiu nesta semana uma viagem para Pequim indicando que seu país poderia abastecer a China com energia, caso haja alguma ruptura por conta da guerra.

Acelerar energia limpa

Ainda que o carvão represente metade do consumo de combustíveis do país, a ordem em Pequim é a de acelerar a transição para energias limpas.

Para o mundo, o discurso é de que isso vai ajudar a salvar o planeta. Internamente, a lógica é outra: vai garantir a soberania do país contra a ameaça dos EUA.

Já em 2021, Xi Jinping anunciou oficialmente que a China deveria ter o fornecimento de energia “nas suas próprias mãos”. Alguns anos antes, ele havia tomado a decisão de classificar a segurança energética do país como um elemento fundamental de segurança nacional.

Agora, o resultado não foi apenas uma demonstração de resiliência de sua economia, mas também um novo posicionamento político.

A China é o maior comprador do petróleo iraniano. Antes do conflito começar, metade do abastecimento de petróleo no mercado chinês vinha do Oriente Médio. Mas, ainda assim, isso significava apenas 5% de todo o consumo de energia do país.

Mesmo com o fechamento do Estreito de Ormuz, o relacionamento privilegiado de Pequim com Teerã impediu que a queda no fornecimento fosse profunda. As importações chinesas de petróleo iraniano caíram apenas marginalmente, de 1,57 milhão de barris por dia em fevereiro para 1,47 milhão de barris por dia em março.

O impacto foi sentido para o comércio chinês. Em março, as exportações do país tiveram uma alta de apenas 2,5%. Bem abaixo da expectativa de um crescimento de 27% e 19% entre janeiro e fevereiro de 2026.

Se o abalo ocorreu, ele não foi em nada comparável ao impacto que a guerra gerou para o restante da região. Em diversos países asiáticos, a dependência em relação à energia que passa por Ormuz era ainda maior. 95% do petróleo importado pelo Japão vem do Oriente Médio. Governos como o das Filipinas e Sri Lanka anunciaram emergência nacional e até reduziram os dias de trabalho na semana, na esperança de não viver uma penúria energética.

Desde o começo da guerra, de fato, as exportações de petróleo do Oriente Médio caíram em mais de 60%. Na Ásia, isso significou um sentimento de pânico entre autoridades e a obrigação de muitos setores – inclusive de IA – de repensar suas estratégias de desenvolvimento para os próximos anos.

Na terça-feira, a resiliência chinesa foi confirmada. O Fundo Monetário Internacional anunciou prevê que o país terá uma expansão de 4,4% em seu PIB em 2026, dois pontos percentuais abaixo do que se previa em janeiro. Mas a taxa é bem acima da média de crescimento mundial de 3,1% e do crescimento de 2,3% da economia dos EUA.

Apagão? Impossível

A realidade é que os chineses já tinham criado um colchão, ainda que tenham também sentido um aumento nos preços nos postos de gasolina.

Na sede da Companhia de Petróleo da China, em Pequim, um funcionário admitiu ao ICL Notícias que, ao longo dos últimos anos, a gigante começou a se retirar gradualmente de sua produção no Irã. Um elemento ainda importante nesse processo foi o impacto das sanções que empresas passaram a sofrer os EUA, caso mantivessem negócios oficiais com o governo iraniano.

A outra aposta foi em energia solar e eólica. Na cidade de Shenzhen, a aposta por energia verde já vem de anos. Ao ser visitada pela reportagem, a subsidiária da China Southern Power Grid informou que, atualmente, a cidade de 22 milhões de habitantes possui cerca de 80% de sua capacidade instalada de geração elétrica proveniente de fontes limpas.

Entre 2021 e 2025, a carga máxima de eletricidade de Shenzhen atingiu recordes sucessivos, passando de 19,1362 milhões de kW em 2020 para 24,0112 milhões de kW em 2025.

Uma fonte local, ao ser questionado sobre o risco de um apagão, apenas riu e disse: “impossível”. Alguns estudos indicam que, por ano, a metrópole acumula um total de cinco minutos de falhas elétricas.

No distrito de Guangming, que foi erguido nos últimos sete anos para ser um centro de inovação, administradores insistem que a guerra no Irã não abalou os planos do local ou a vida do cidadão comum, no que se refere aos preços de combustíveis.

Lucros da guerra

O orgulho dos investimentos em fontes renováveis e em tecnologias alternativas ainda cresce diante da possibilidade de que a guerra no Irã traga lucros para a China.

Nos últimos anos, o país passou a ser o maior exportador do mundo de muitas das tecnologias limpas, incluindo carros elétricos. Com a guerra, a perspectiva é de que a demanda mundial por alternativas ao petróleo viverá uma explosão. E quem ganha com isso é justamente a China.

Mesmo assim, Xi usou a guerra para fazer um apelo para que a China acelerasse ainda mais o desenvolvimento de energias alternativas. Num discurso no mês passado, ele admitiu que as usinas a carvão continuam sendo a base do sistema energético da China, mas devem ser combinadas com outras fontes.

Nas bolsas de valores, as apostas já indicam que serão as empresas do setor de energia limpa da China que vão sair como as vencedores da guerra. As ações de companhias como a BYD e CATL viram suas cotações saltar de forma impressionante. Mesmo a agência de risco Fitch já apontou como governos altamente dependentes da importação de energia vão passar a investir mais em energia renovável.

Entre os governos asiáticos, muitos já discutem reduzir de forma drástica a dependência em relação ao petróleo do Oriente Médio e voltar seus olhos e bolsos para um abastecimento de energia da China.

Jamil Chade

Jamil Chade

Cruzando fronteiras com refugiados, testemunhando crimes contra a humanidade, viajando com papas ou cobrindo cúpulas diplomáticas, Jamil Chade percorreu mais de 70 países. Com seu escritório na sede da ONU em Genebra, ele foi eleito o segundo jornalista mais admirado do Brasil em 2025. Chade foi indicado 4 vezes como finalista do prêmio Jabuti. Ele é embaixador do Instituto Adus, membro do conselho do Instituto Vladimir Herzog e foi um dos pesquisadores da Comissão Nacional da Verdade.

https://iclnoticias.com.br/china-investe-em-soberania-energetica-para-conter-ofensiva-de-trump/

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