"Feitos para o amor, existe em cada um de nós uma espécie de lei do êxtase: sair de si mesmo para encontrar nos outros um acréscimo de ser", lembrou Papa Francisco na encíclica "Fratelli Tutti".
Na conversa com seus discípulos e discípulas, às vésperas do momento agudo de sua passagem dolorosa para o Pai, Jesus faz um “testamento verbal”, espiritual. Não deixa bens, pois nunca acumulou, mas o Bem maior: o seu amor.
O mandamento do amor é novo e revolucionário porque confronta a Lei de Talião - “olho por olho, dente por dente” - e a brutalidade do “bateu, levou” vigorantes (ontem e hoje).
A mística cristã é uma aposta (sem as ciladas e ilusões degradantes das ‘bets’): aposta na vocação do ser humano para a comunhão, para a troca, onde dar é receber. Aposta na energia amorizante que há em todas as criaturas e no planeta.
Os Judas, claro, fissurados por “trinta dinheiros”, nunca entenderão (tanto que, no relato de João, Jesus espera que Iscariotes saia da sala para fazer essa declaração de amor aos que, com ternura, chama de “filhinhos”): “se vocês tiverem amor uns para com os outros, todos reconhecerão que são meus discípulos” (35).
Fala com o sentido de urgência de quem se sabe perto do fim: “vou ficar com vocês só mais um pouco” (33).
Essa consciência da finitude, da impermanência, devia nos cutucar sempre: sermos plenos no mínimo que fazemos.
Amor em família, amor na vizinhança, no trabalho, na escola, na sociedade. Amor que não descarta, não discrimina nem invisibiliza ninguém! Amor ágape, amor eros, amor philia, presentes de Deus em nossas breves existências.
Amor mundial, que repudia guerras e massacres, como em Gaza (quantas crianças estão morrendo de fome e bombas agora!?!?) e clama por justiça e paz. Amor planetário, que cuida da Terra, nossa exaurida Casa Comum.
Amor vivido por milhões de anônimos, no miúdo de suas vidas de serviço, sem esperar retribuição. Amor de figuras públicas raras, exemplares e luminosas que nos deixaram, como Papa e Pepe... Quem busca seguir seus exemplos?
Amor que é regra para o bem viver cotidiano, apesar das dores e decepções: "só se pode viver perto de outro, e conhecer outra pessoa, sem perigo de ódio, se a gente tem amor: qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura" (Guimarães Rosa, "Grande Sertão: Veredas").
"Feitos para o amor, existe em cada um de nós uma espécie de lei do êxtase: sair de si mesmo para encontrar nos outros um acréscimo de ser", lembrou Papa Francisco na encíclica "Fratelli Tutti".
Não percamos essas dádivas da vida!
Cerezo Barredo - "Ceia ecológica do Amor" (igreja Imaculada Conceição - Querência, MT)
Desenho de Nando Motta - chico.alencar
