Coordenador de Flávio defendeu reduzir crédito público que financia o Minha Casa, Minha Vida
Coordenador de Flávio defendeu reduzir crédito público que financia o Minha Casa, Minha Vida
Por Cleber Lourenço
O economista Adolfo Sachsida, integrante da coordenação econômica da campanha de Flávio Bolsonaro (PL-RJ), defendeu a redução do crédito oferecido pelos bancos públicos, responsáveis por financiar programas como o Minha Casa, Minha Vida. A posição está registrada em um livro escrito com o ex-ministro Paulo Guedes e publicado em 2024. A proposta ganha relevância porque a Caixa Econômica Federal, principal operadora do programa habitacional, responde por mais de 99% de seus financiamentos.
No livro A política econômica brasileira no período 2019–2022: Consolidação fiscal e reformas pró-mercado para aumento da produtividade, Sachsida e Guedes apresentam como uma das diretrizes econômicas do governo Jair Bolsonaro “a redução do crédito via instituições públicas (e aumento do crédito via instituições privadas)”.
Os autores também defendem a diminuição do crédito direcionado, modalidade de financiamento que segue regras específicas e é utilizada em políticas públicas como habitação popular, agricultura familiar e desenvolvimento econômico. Outra medida apresentada na obra é a desalavancagem dos bancos públicos, que envolve a redução de sua exposição financeira.
Na prática, a orientação defendida pelos economistas busca diminuir a participação do Estado na oferta de empréstimos e ampliar o espaço das instituições privadas. Essa mudança pode ter consequências especialmente importantes em áreas nas quais os bancos públicos oferecem financiamentos com condições diferenciadas para famílias e pequenos produtores.
Minha Casa, Minha Vida depende da Caixa
A Caixa desempenha um papel central no financiamento da casa própria no Brasil. Segundo dados divulgados pela instituição, o banco respondeu por mais de 99% dos financiamentos do Minha Casa, Minha Vida em 2025 e concentra aproximadamente 68% do mercado de crédito imobiliário.
O programa utiliza recursos como os do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) para oferecer empréstimos com juros inferiores aos normalmente encontrados no mercado. Dependendo da renda familiar e da região, as taxas nominais podem começar em 4% ao ano, além da possibilidade de subsídios que reduzem o valor pago pelo imóvel.
Essas condições são fundamentais para famílias que não conseguem contratar um financiamento imobiliário convencional. Os recursos públicos e as regras especiais de crédito permitem ampliar o acesso à casa própria, especialmente entre trabalhadores de menor renda.
Uma redução da participação da Caixa na concessão desses empréstimos, sem a substituição por financiamentos equivalentes, poderia dificultar o acesso à moradia. Isso porque a disponibilidade de recursos, os prazos de pagamento e as condições oferecidas pelas instituições financeiras influenciam diretamente a capacidade das famílias de assumir as prestações.
O impacto dependeria de quais linhas de crédito fossem atingidas. Bancos privados também podem operar financiamentos habitacionais com recursos do FGTS, mas a concentração das operações na Caixa demonstra o peso da instituição pública na execução do programa.
Bolsonaro cortou 98% de verba destinada à habitação popular
O Minha Casa, Minha Vida já sofreu cortes expressivos durante o governo Jair Bolsonaro, quando foi rebatizado de Casa Verde e Amarela.
Em abril de 2021, Bolsonaro vetou R$ 1,51 bilhão do orçamento destinado ao Fundo de Arrendamento Residencial (FAR), responsável por financiar a construção de moradias para famílias de baixa renda. O valor disponível caiu de R$ 1,54 bilhão para apenas R$ 27 milhões, uma redução de 98,2%.
O corte atingiu justamente a modalidade voltada à população mais pobre. Na época, a Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) alertou para o risco de paralisação de obras de aproximadamente 250 mil unidades habitacionais.
A situação voltou a se repetir na proposta de Orçamento de 2023, enviada pelo governo Bolsonaro ao Congresso. O documento reservou apenas R$ 34,2 milhões ao FAR, valor 95,3% inferior à previsão inicial para 2022. Na ocasião, a insuficiência de recursos ameaçou congelar obras de 140 mil moradias populares.
Os cortes atingiram recursos orçamentários destinados à construção subsidiada de habitações, uma modalidade diferente dos financiamentos bancários discutidos no livro de Sachsida e Guedes.
Agricultura familiar e pequenos negócios também dependem do crédito público
A discussão vai além do financiamento habitacional. O crédito direcionado também desempenha um papel importante no apoio à produção de alimentos e aos pequenos empreendedores.
O Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), por exemplo, oferece empréstimos com condições especiais para agricultores financiarem o plantio, a compra de equipamentos e melhorias nas propriedades.
No Plano Safra da Agricultura Familiar 2026/2027, foram anunciados R$ 85,2 bilhões em operações do Pronaf, incluindo linhas com juros de 2% ao ano para determinadas atividades de produção de alimentos.
O Banco do Brasil e outras instituições financeiras participam da concessão desses recursos. Uma redução do crédito direcionado poderia restringir o financiamento rural caso atingisse as fontes de recursos e os mecanismos que permitem oferecer juros diferenciados.
Outro exemplo é o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), que financia investimentos em infraestrutura, inovação, indústria e empresas de diferentes portes.
Em 2025, o banco desembolsou aproximadamente R$ 170 bilhões e aprovou R$ 96 bilhões em financiamentos destinados a micro, pequenas e médias empresas.
A atuação dessas instituições é particularmente relevante em setores nos quais o financiamento privado pode ser mais caro, exigir garantias maiores ou oferecer prazos menos favoráveis.
Governo Bolsonaro já reduziu financiamento do BNDES pelo Tesouro
A orientação econômica apresentada no livro também encontra antecedentes na administração de Jair Bolsonaro.
Durante a gestão de Paulo Guedes, o BNDES realizou devoluções antecipadas de recursos ao Tesouro Nacional, como parte da estratégia de diminuir sua dependência de empréstimos concedidos pelo governo federal.
Em 2019, foram devolvidos antecipadamente R$ 100 bilhões. Em 2021, o valor chegou a R$ 63 bilhões, seguido de outros R$ 72,31 bilhões em 2022.
As operações fizeram parte de uma mudança no modelo de financiamento do banco. Embora não tenham representado uma redução equivalente dos empréstimos concedidos a empresas e famílias, diminuíram os recursos que a instituição mantinha provenientes de financiamentos do Tesouro.
No livro, Sachsida e Guedes apresentam a redução da participação dos bancos públicos e do crédito direcionado como parte da estratégia econômica adotada naquele período.
Sachsida ocupou o cargo de secretário de Política Econômica do Ministério da Economia e posteriormente comandou o Ministério de Minas e Energia durante o governo Bolsonaro.
Agora, participa da formulação econômica da candidatura de Flávio Bolsonaro. Sachsida coordena reuniões de técnicos ligados à antiga equipe de Paulo Guedes. Ele é o nome preferido de ex-presidente e criminosos condenado Jair Bolsonaro para comandar o Ministério da Fazenda em um eventual governo do filho.
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