O MINISTRO, O BANQUEIRO E O FUNDO

                                                                                               


 https://piaui.uol.com.br/web/toffoli-relatorio-pf-vorcaro-paraiso-fiscal/

questões supremas

O MINISTRO, O BANQUEIRO E O FUNDO

Polícia Federal suspeita que Toffoli tenha dinheiro de Vorcaro em paraíso fiscal
Toffoli ao lado de seu amigo, o empresário Alberto Leite, também citado na investigação - Crédito: Reprodução
Toffoli ao lado de seu amigo, o empresário Alberto Leite, também citado na investigação - Crédito: Reprodução

Há sete meses, o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, tem em mãos um relatório da Polícia Federal que apresenta suspeitas gravíssimas sobre a relação do ministro Dias Toffoli com o banqueiro Daniel Vorcaro. Em um trecho, o relatório, ao qual a piauí teve acesso, levanta a suspeita de que Toffoli seja “o beneficiário final” ou o “proprietário de fato” do Arleen, um fundo de investimento que recebeu 35 milhões de reais de Vorcaro. Por meio de uma transação com uma holding, a Egide I, os recursos foram parar nas Ilhas Virgens Britânicas, paraíso fiscal do Caribe.

O fundo Arleen era sócio do Tayayá, o resort que pertence a Toffoli e sua família em Ribeirão Claro, no interior do Paraná. A certa altura, segundo o relatório da PF, o Arleen, que pertencia ao banqueiro, mudou de proprietário, passando para as mãos de um empresário amigo de Toffoli. Em seguida, o fundo fez uma alteração em seu regulamento para permitir que fizesse investimentos no exterior e, meses depois, transferiu todos os seus ativos para o Egide I, registrado no paraíso fiscal caribenho.

Diz o relatório, depois de informar que Vorcaro aportou “ao menos” 35 milhões de reais no fundo Arleen: “Foram identificados diversos elementos de informação que, analisados de forma conjunta, apontam no sentido de que o ministro José Antonio Dias Toffoli possa ter figurado como beneficiário final ou proprietário de fato do FIP Arleen, bem como de seus ativos.” Em outro trecho, o relatório afirma: “Documentos e comunicação [...] sugerem uso de interpostas pessoas e estruturas no exterior, incluindo movimentações envolvendo a Edige I Holding nas Ilhas Virgens Britânicas.”

Consultado se tem recursos no exterior e, em caso positivo, se os recursos estão devidamente declarados em seu Imposto de Renda, o gabinete do ministro Dias Toffoli mandou uma nota à piauí em que afirma que “o ministro jamais manteve ou teve direta ou indiretamente recursos no exterior”. Acrescentou que “o ministro jamais realizou qualquer operação direta ou indiretamente nas Ilhas Virgens Britânicas”. 

Toda a operação para enviar recursos ao exterior, relatada pela PF, deu-se ao longo de 2025. Em fevereiro, o empresário Alberto Leite, amigo de Toffoli e dono da empresa de segurança FS Security, comprou o fundo Arleen. No mês seguinte, registrou a holding Egide I nas Ilhas Virgens Britânicas e, no mesmo mês, alterou o regulamento do Arleen para autorizar investimentos no exterior. Em novembro, o Arleen começou a se desfazer de suas cotas e, em dezembro, transferiu cerca de 34 milhões de reais para a Egide lá fora. “Deste modo”, afirma o relatório da PF, “pode-se afirmar que todo o ativo do Arleen [...] é transferido para a Egide I Holding na liquidação do fundo”.

O relatório traz ainda outra suspeita grave: a de que Vorcaro possa ter influenciado um voto de Toffoli numa causa sobre precatórios do setor sucroalcooleiro de modo a beneficiar o banqueiro. Uma destilaria, a Alcídia, que pertence ao grupo Atvos, cobrava da União a reparação de prejuízos causados na década de 1980. A decisão sobre o caso teria impacto direto sobre a carteira de precatórios do setor sucroalcooleiro no balanço do Banco Master, que somava mais de 10 bilhões de reais. Se a Alcídia ganhasse a causa, melhor para o Master. Referindo-se ao caso, o diretor jurídico do Master, André Kruschewsky, mandou uma mensagem para Vorcaro: “É importante! Serve de paradigma para nossos casos.”

Toffoli tinha um posicionamento historicamente favorável às usinas nas ações de precatórios. O problema é que, dias antes do julgamento da Alcídia, o ministro julgou uma outra ação parecida e deu um cavalo de pau: votou ao contrário do que sempre fizera. Em vez de favorecer as usinas, decidiu a favor da União. A notícia de que Toffoli “virou voto” caiu como uma bomba para o Master, e a melhor expressão disso veio em uma mensagem de Fábio Faria, o ex-ministro das Comunicações que trabalhava como ajudante de ordens e lobista de Vorcaro: “Matou a gente.” “Comecei a suar.” “Pqp.” 

O pessoal do Master não perdeu tempo. O diretor jurídico do banco, André Kruschewsky propôs ao banqueiro: “Vamos nos movimentar?” Vorcaro encaminhou mensagens em sequência: “Estou acompanhando.” Depois: “Mais do que imagina.” Em seguida, escreveu: “Tá uma pica isso.” Deixou claro que sabia da novidade: “Toffoli virou o voto” e que já havia entrado em ação: “Tô tratando aqui.” Na troca de mensagens, a certa altura o diretor jurídico oferece seus serviços para tentar adiar o julgamento do caso da Alcídia. Diz: “Se precisar de ajuda, para tirar de pauta, avisa!”.A Polícia Federal registra que o diretor jurídico “aparenta ter acesso ao STF inclusive para ‘tirar de pauta’ o processo em questão”. No dia em que o caso deveria ser julgado, o ministro Kassio Nunes Marques pediu vista do processo, e Toffoli registrou ausência justificada. O caso acabou adiado e só foi retomado em 1º de outubro de 2024.

Na sessão que julgou a situação da Alcídia, a tese da usina prevaleceu, para alívio do Master. Toffoli votou a favor da usina, contrariando o voto mais recente que tinha dado em um caso semelhante envolvendo a Raízen. Às 16h58, um operador do banco avisou Vorcaro: “Ganhamos Alcídia”, e informou o resultado, 3 votos a 2, com a virada de Toffoli. O banqueiro respondeu com um emoji de joinha. Depois, comunicou o resultado a um contato que a Polícia Federal identifica como sendo Paulo Sérgio Neves, diretor do Banco Central, que respondeu com uma imagem de mãos em oração: “🙏🏽.”

O relatório da PF diz que o caso “demanda aprofundamento analítico, não sendo no presente momento suficiente para conclusões definitivas”. No entanto, afirma que as mensagens “Toffoli virou o voto” e “tô tratando aqui” assumem “especial relevância, por ocorrerem em momento imediatamente anterior à data designada para julgamento, e por estarem inseridas em diálogo no qual se discute a necessidade de ‘se movimentar’ e de ‘acompanhar’ o caso”.

Na nota que enviou à piauí, o gabinete do ministro nega qualquer “alteração de voto”. Diz que o ministro votou sempre do mesmo jeito no caso da Raízen, o que é verdade. A questão, no entanto, é outra. No caso da Raízen, ele contrariou o voto que historicamente dava – sempre contrário à União –, o que deixou Vorcaro e sua turma em pânico. No julgamento da Alcídia, Toffoli voltou a votar como costumava fazê-lo – isto é, contrário à União e a favor da usina.

O relatório da PF, cujo nome oficial é Informação de Polícia Judiciária de Análise nº 893171/2026, foi feito com base no conteúdo do celular do banqueiro apreendido quando de sua primeira prisão, em 18 de novembro de 2025. “O material examinado expõe, de forma recorrente, contatos diretos e indiretos entre Daniel Bueno Vorcaro e o ministro José Antonio Dias Toffoli”, diz a PF, que encaminhou o documento ao presidente do STF, Edson Fachin, por dois motivos: Toffoli era o relator do caso Master e ministros da Suprema Corte não podem ser investigados sem o aval do tribunal.

Em decorrência dessa limitação, os agentes federais não puderam ir mais a fundo nas suspeitas. No caso do voto sobre precatórios do setor sucroalcooleiro, o relatório diz que há necessidade de “aprofundamento analítico” – o que não ocorreu até hoje. Sobre os 35 milhões de reais nas Ilhas Virgens Britânicas, a PF menciona a importância de acessar um documento sobre dação de pagamento de modo a esclarecer a operação – o que também não aconteceu até agora.

Em sua conclusão, o relatório da PF diz que o documento está sendo encaminhado ao STF para “as providências cabíveis” – no caso, providências que caberiam, se assim quisesse, ao novo relator do inquérito, o ministro André Mendonça. Indagado pela piauí sobre as razões que o levaram a manter o relatório sob sigilo e sem providências, o ministro André Mendonça disse que o relatório não foi enviado a ele especificamente – mas, na condição de relator do caso, ele poderia ter solicitado o relatório e tomado providências, como fez, aliás, como  a investigação a respeito de Alexandre de Moraes. 

Sobre o relatório em si, a nota do ministro Toffoli afirma o seguinte: “Em relação ao citado relatório, desde logo cabe dizer que ele foi arquivado, com decisão de trânsito em julgado”. Também afirma que “conforme nota oficial do STF, do dia 12 de fevereiro de 2026, os dez ministros tiveram ciência de todo o seu conteúdo e das devidas informações preparadas pelo ministro tanto no formato escrito quanto presencialmente, deliberando não ser o caso de suspeição. Previamente o presidente Edson Fachin já havia rejeitado o pedido de distribuição como inquérito. Decisões estas, repita-se, transitadas em julgado.”

Há uma imprecisão. Quando se reuniram, em fevereiro, os dez ministros arquivaram a arguição de suspeição contra Toffoli, mas não o relatório que a embasou. Esse documento, e toda a investigação que levou até ele, continuaram sob a posse da PF e, portanto, poderiam ter motivado novas diligências. Poderiam, também, ter tido o seu sigilo levantado. O ministro relator, André Mendonça, não fez nem uma coisa nem outra. Indagado pela piauí, respondeu que os autos da arguição não lhe foram remetidos e que, por isso, “não há providências a serem adotadas por esta relatoria”.



Orelatório da PF mostra que Daniel Vorcaro cuidava com extrema atenção dos depósitos que fazia para o fundo Arleen, sócio do resort Tayayá. Tratava os pagamentos como um compromisso inadiável. Em 14 de agosto de 2024, por exemplo, o banqueiro entrou em pânico ao saber que as transferências estavam em atraso. Logo cedo, acionou seus principais operadores – o operador jurídico-financeiro, seu cunhado Fabiano Zettel, e o operador político, o ex-ministro Fábio Faria. Queria fazer o pagamento o quanto antes. Também fez questão de mandar mensagem para o próprio Toffoli, aparentemente para se justificar sobre o atraso. A cronologia das trocas de mensagem mostra o grau de preocupação do banqueiro.

Às 8h28 do dia 14 de agosto, Fábio Faria liga para o banqueiro. Falam durante sete minutos, mas o conteúdo dessa conversa não é conhecido. O que se sabe é que, em seguida, às 8h39, Vorcaro entra em contato com o seu cunhado e pergunta: “Aquele negócio do Tayayá foi feito?” Seu cunhado diz então que o pagamento fora feito, mas havia um entrave qualquer para completar a operação. Era preciso, disse o cunhado, falar com o “Lippi do Warde”. Referia-se ao advogado Guilherme Lippi, que trabalhou no escritório de Walfrido Warde, do qual Vorcaro era cliente. Querendo saber por que seu cunhado precisava falar com o “Lippi do Warde”, Vorcaro pergunta: “Precisa de quê?” O cunhado responde: “Que ele me diga pra quem passar...”

Ao descobrir que havia um entrave, Vorcaro aciona Fábio Faria para avisar: “Vou mandar uma mensagem pro Toffoli.” E, ao constatar que o pagamento fora feito mas não havia chegado ao destino final, completou: “Isso tem algo errado aí.” Trinta e cinco segundos depois, Vorcaro escreve para o ministro do STF: “Oi tudo bem? Gostaria de te ver rapidamente, você teria algum horário hoje?” O relatório não registra resposta do ministro. No contexto, tudo indica que o banqueiro queria prestar explicações sobre o atraso. Depois de enviar a mensagem a Toffoli, ele voltou ao cunhado para reclamar: “Me deu um puta problema”. E pergunta o paradeiro do dinheiro: “Onde tá a grana.” Zettel, o cunhado, responde: “No fundo dono do Tayayá.” Não há outras explicações, e a PF não sabe se o “fundo dono” do resort era uma referência ao Arleen ou ao Leal, ambos sócios do resort.

O fato é que, minutos depois, o banqueiro pediu um levantamento detalhado do que já havia sido pago. “Aportamos os 15. Agora falta só transferir”, informa Zettel. Vorcaro insiste: “Quero tudo até hoje.” Em seguida, às 9h02, Fábio Faria entra na conversa e pede que o banqueiro resolva o assunto até o dia seguinte. O banqueiro foi atrás de quem estava travando a operação e enviou uma mensagem ao cunhado às 10h56: “Lippi acaba de dizer que ele quem está travando.” E emendou: “E Walfrido disse que nem tava sabendo.” Já à tarde, Zettel informou o total pago: “Pagamos 20M lá atrás. Agora mais 15M.” Às 17h47, Zettel anunciou em três mensagens: “Tayayá resolvido.” 

Daniel Vorcaro perdera a paciência com a pendência no Tayayá porque havia meses fazia cobranças ao seu cunhado Fabiano Zettel sobre os aportes. Em 24 de maio de 2024, por exemplo, o banqueiro retornou uma ligação de Toffoli às 14h14. O relatório da PF não informa o assunto, mas poucas horas depois, às 17h18, Vorcaro escreveu para o seu cunhado: “Vc não resolveu o aporte no fundo.” Especificou a que se referia: “Tayayá”. E acrescentou em seguida: “Estou em situação ruim.”



Em 5 de novembro de 2025, logo depois de celebrar a vitória no caso da usina Alcídia, Vorcaro começou a discutir sua saída do Tayayá – e, portanto, sua desvinculação do fundo Arleen. Naquele mês, escreveu ao seu cunhado Fabiano Zettel que “aquele FIP Tayayá [refere-se ao Arleen] tem que passar pra um amigo que vai comprar”. Não deu a identidade do amigo. Logo em seguida, perguntou: “Posso pedir te procurar?” e, só então, deu o nome incompleto: “Alberto.” Era Alberto Leite, dono da FS Security e amigo de Toffoli. Leite aparece em três frentes do relatório, que ajudam a elucidar suas relações com Vorcaro e com o ministro do Supremo.

A primeira é que, em um plano de negócios de abril de 2024 encontrado no celular do banqueiro, o próprio Vorcaro, Fábio Faria e Alberto Leite aparecem como diretores da Skylink, empresa criada para representar a Starlink, de Elon Musk, no Brasil. (Na reportagem Fábio Faria, “o cara de Vorcaro”, publicada pela piauí, Faria negou que Vorcaro fosse sócio do empreendimento. Se a afirmação da PF procede, trata-se de mais um negócio em que Faria e Vorcaro foram sócios.)

A segunda é que a principal empresa de Alberto Leite, a FS Security, figurou entre as patrocinadoras do fórum jurídico que o Banco Master bancou em Londres, até que Vorcaro mandasse tirar o nome da lista: “Tiraria FS tb.” A terceira é que, em junho de 2024, Leite custeou um camarote na final da Liga dos Campeões, também em Londres, onde recebeu o ministro Dias Toffoli. Uma selfie tirada por Leite com o ministro virou notícia. Vorcaro não estava na cena, mas reclamou com seu articulador. “Não pode expor os caras assim pqp”, escreveu. Fábio Faria respondeu com uma frase que pressupõe hábito: “Agora Alberto não vai poder mais viajar com o Toffoli.” Dois meses antes, em abril, Faria já avisara ao banqueiro que ia almoçar com Toffoli e com Leite: “Tô indo c ele e o Alberto.” Sobre esse conjunto, a Polícia Federal conclui que há “vínculo relacional” entre Alberto Leite e o ministro do Supremo.

Ao apontar ao seu cunhado que o destinatário do Arleen era Alberto Leite, Vorcaro procurou se certificar de que o fundo Arleen tinha dinheiro em caixa. “Tem os 15M que vc colocou. Se ninguém gastou...”, informou-lhe Zettel. O banqueiro insistiu: “Onde tá a grana?”. Resposta: “REAG”, uma referência à gestora de fundos do Master. E então veio a pergunta que a Polícia Federal grifa no relatório, feita por Vorcaro, que era o próprio dono do fundo: “Como chama o FIP?”. Zettel responde: “FIP Arleen.” Naquele mesmo 5 de novembro, Vorcaro escreveu ao empresário Alberto Leite: “Estou pronto pra executar aquele deal que falamos”. Leite respondeu: “Beleza”, disse que estava na Espanha e acrescentou: “Vou pedir pro meu pessoal dar um gás com o teu.”

Sete semanas depois, no dia 27 de dezembro, o banqueiro pediu o papel. “Preciso fazer contrato de venda do fundo Tayayá”, escreveu ao cunhado, referindo-se, mais uma vez, ao Arleen. Zettel perguntou: “Vender pra quem?”. Vorcaro não respondeu à pergunta. Mandou fazer a minuta, estabeleceu o prazo, “pra pagarem até 180 dias”, e deu a instrução que a define: “Sem nome.”

Vorcaro voltou ao assunto em 12 de janeiro, dizendo “Preciso resolver o FIP”. Seu cunhado perguntou: “Tayayá?”. O banqueiro respondeu positivamente e encaminhou então um cartão de contato com o nome de Alberto Leite e escreveu: “Tenho que transferir pra ele.” O banqueiro, então, quis saber quanto valia. “Preciso saber valor PL do fundo.” Zettel respondeu: “Vai transferir o FIP inteiro, né?” Sim, a ideia de Vorcaro era transferir o Arleen integralmente para Alberto Leite.

No dia seguinte, Zettel reproduziu para Vorcaro a abordagem que fizera ao comprador do Arleen: “Boa tarde, amigo! Tudo bem? Estou chamando a pedido do Daniel Vorcaro. Queria organizar a questão da transferência do FIP Arleen, dono do Tayayá”. Leite simplesmente não respondeu. Vorcaro, ao ser informado da abordagem e do silêncio, reclamou: “Aí o cara não responde nem daqui 1 século”, deixando claro que o negócio não podia ser tratado às claras nem com os interlocutores diretos. O desfecho deu-se em 19 de fevereiro de 2025, segundo Zettel: “Alberto Leite concluído! Tá todo feliz”. Meses depois, Leite vendeu sua participação no Tayayá para a PHD Holding, empresa do advogado Paulo Humberto Barbosa, ligado ao grupo J&F.

Procurado pela piauí, Alberto Leite disse que não daria entrevista, mas afirmou que nunca foi sócio do ministro Dias Toffoli nem do banqueiro Daniel Vorcaro. Ao jornal Folha de S.Paulo, ele havia declarado que a compra do Arleen foi uma operação imobiliária regular e lucrativa, promovida por seu braço de investimentos, e negou qualquer vínculo societário, comercial ou de favorecimento com o ministro Toffoli.



Em 11 de maio de 2021, um sócio do escritório Walfrido Warde enviou ao celular do banqueiro Daniel Vorcaro um arquivo em Word batizado “Procuração Banco Máxima (2)”. Banco Máximo é o nome antigo do Master. O documento era uma procuração em que Roberta Rangel, à época mulher de Dias Toffoli, figurava como representante da Companhia Agroindustrial de Goiânia numa ação rescisória. O precatório dessa mesma empresa aparece na planilha de ativos do Master, em duas linhas que somam 1,8 bilhão de reais, a segunda maior posição da carteira. (Toffoli e Roberta se separaram em 2025.)

O relatório da PF revela que a relação profissional de Rangel com o Master vem de dezembro de 2020. Quando a Justiça Federal em Rondônia mandou bloquear 7,7 milhões de reais dos bens de Vorcaro na Operação Fundo Fake, o escritório Warde apresentou proposta de honorários especificando quem lideraria os trabalhos: Walfrido Warde e Roberta Rangel.

Em uma troca de mensagens, o próprio Vorcaro admite que Rangel trabalhava para ele. Em 6 de março de 2024, um advogado avisou ao banqueiro que a parte contrária em um processo que tramitava no Superior Tribunal de Justiça (STJ) havia substabelecido para Roberta Rangel, e acrescentou: “Mulher do Toffoli”. Vorcaro respondeu, na sequência imediata: “Ela é minha advogada”. 

“Quanto a Roberta Rangel, então esposa de Dias Toffoli, esta figuraria como advogada de Daniel Bueno Vorcaro, tendo sido identificados vínculos profissionais e logísticos com o banqueiro ao menos no período compreendido entre dezembro de 2020 e fevereiro de 2025”, ressalta o relatório da PF. (Ou seja, durante todo o período em que Daniel Vorcaro esteve associado ao Tayayá, Roberta Rangel foi sua advogada.) O último registro identificado pelos investigadores é de fevereiro de 2025. Dez meses depois, um sorteio definiu Toffoli como relator do caso Master no Supremo.

O relacionamento entre Daniel Vorcaro e Roberta Rangel é tratado em um dos tópicos do relatório da PF, que em outra parte aborda também os encontros entre Toffoli e  Vorcaro. “Com base nos elementos analisados, verificou-se a existência de registros que evidenciam encontros recorrentes entre Daniel Bueno Vorcaro e o ministro José Antonio Dias Toffoli, ocorridos em contextos diversos do estritamente profissional”, diz o documento. 

Os encontros, em si, são um capítulo à parte. O relatório da PF indica “ao menos 12 registros distintos de encontros presenciais” agendados entre eles. A tabela que sustenta essa conta, nas duas últimas páginas do documento, chama-se “encontros e interações”, e mistura encontros, convites e agendamentos. A piauí examinou os registros: seis são descritos pelo relatório como encontros ocorridos entre novembro de 2023 e abril de 2024.

O primeiro convite foi feito por Toffoli por WhatsApp para a celebração de seus 56 anos em 19 de novembro, no Bar dos Arcos, em São Paulo. O convite foi disparado em 30 de outubro de 2023, na primeira mensagem trocada entre os dois no número atribuído a Toffoli com o DDD 61, de Brasília. Não há confirmação de que Vorcaro esteve presente à festa, mas dois dias antes o banqueiro escreveu para uma terceira pessoa: “Vou para SP domingo”, acrescentando: “Aniversário do Toffoli”. A PF conclui que isso indica “ao menos, interesse declarado em participar”.

Para a PF, Toffoli foi à casa de Vorcaro em 14 de novembro de 2023. Foi Fábio Faria quem sugeriu o lugar: “Melhor na sua casa pro Toffoli ficar mais de boa”. O banqueiro concordou e definiu o formato: “Então vamos só nós mesmo de homem mais os dois”. Na véspera, Faria fechou: “Tudo certo amanhã”, “Toff confirmado e Ciro tb”, “Só nós 4”. Eles teriam se encontrado novamente no dia seguinte. Dessa vez, o convite partiu do ministro. “Toffoli chamou pra hoje 21”, escreveu Vorcaro a Fábio Faria, que respondeu com o roteiro: “Almoço no Dom”, “17h vamos pro Pinnocchio”. À tarde, confirmou: “Pinnocchio armado”, “Pra 17h”.

Em Brasília, Vorcaro se encontrou com Toffoli em um endereço que a PF suspeita ser o da casa do ministro. Na noite do dia 6 de março de 2024, depois de duas chamadas telefônicas, o próprio ministro enviou a Vorcaro, às 20h28, uma mensagem com um endereço residencial no Lago Norte. Vinte e três segundos depois, mandou outra: “9h da manhã”. Na manhã seguinte, às 8h39, o banqueiro escreveu: “Bom dia tudo bem? A caminho, Pelo waze devo me atrasar uns 15 minutos”. O ministro respondeu: “Tranquilo”. Segundo a PF, o endereço “compartilhado pelo ministro, é compatível com a região indicada em fontes abertas como local de sua residência, sendo, portanto, plausível a hipótese de que Daniel Bueno Vorcaro tenha o visitado em sua residência na referida data”.

Em 10 de abril, foi a vez de o ministro ir à casa do banqueiro em Brasília, encontro marcado na véspera com a intermediação de Fábio Faria para as dez da noite. Vorcaro enviou o próprio endereço às 17h27. 

A PF identificou ainda dois encontros em Londres, durante o fórum bancado pelo Master, quando aconteceu a famosa degustação de uísque Macallan. Depois de Londres, os registros rareiam. Em 22 de maio de 2024, Vorcaro recebeu o convite para um evento em Brasília: “Vai a turma política toda. Toffoli confirmou tmb. Lira...”, em referência ao deputado Arthur Lira. Respondeu: “Vou estar”. O relatório conclui que “é provável” que os dois tenham se encontrado ali.

No dia 26 de agosto, Fábio Faria escreveu a Vorcaro: “Amanhã o Toffoli quer almoçar em SP”. O banqueiro respondeu que tinha compromisso e sugeriu o fim da tarde. Faria disse que confirmaria. Não há registro do desfecho.

E há ainda registros de que Vorcaro também foi convidado para ir ao aniversário de Toffoli em 2024. Em 13 de novembro daquele ano, o ex-deputado Guilherme Mussi escreveu ao banqueiro dizendo que faria em sua casa um “jantar/drinks/banda” para celebrar o aniversário “do nosso amigo Zé Tof”. Três minutos depois, Vorcaro recusou: “Puxa que pena, vou estar na Suíça a trabalho!”, e agradeceu. Para a Polícia Federal, a expressão “nosso amigo Zé Tof” “indica vínculo pessoal compartilhado com o referido ministro”.

A PF ainda apontou um último registro. Em 18 de fevereiro de 2025, uma interlocutora do banqueiro enviou-lhe uma mensagem de WhatsApp, na qual rememorou que haviam se encontrado “na casa do Toffoli com o Hugo em BSB”. A referência era ao deputado Hugo Motta, presidente da Câmara. Uma fonte presente na ocasião disse à  piauí que a mensagem se referia a um almoço oferecido por Toffoli em 1º de fevereiro de 2025, dia da eleição de Hugo Motta à presidência da Câmara e de Davi Alcolumbre à do Senado.

Além dos encontros, há as chamadas. Em apenas um dos celulares apreendidos de Vorcaro, a PF identificou dezessete registros de chamadas de voz por WhatsApp entre a linha dele e a linha de Toffoli com DDD de Brasília, entre 5 de março e dezembro de 2024. Do total, oito chamadas foram atendidas e tiveram duração somada de seis minutos e 52 segundos. As outras nove não foram completadas. Nove tentativas partiram do banqueiro e oito do ministro, e as conversas que Toffoli iniciou duraram mais que o dobro das que Vorcaro iniciou: 281 segundos contra 131.

Aos encontros e às ligações somava-se o transporte aéreo. Em 29 de março de 2024, Fábio Faria contou a Vorcaro que Toffoli o havia chamado para almoçar no dia seguinte “lá na fazenda dele”, onde estaria também Bruno Dantas, do Tribunal de Contas da União. “Lá no Paraná?”, perguntou o banqueiro, fazendo referência ao Tayayá. Faria confirmou e perguntou se poderia usar um helicóptero da Prime You. Vorcaro ofereceu o seu: “Já pede na Prime, irmão”. “Eu tenho na Prime um heli só meu”. “É pra nós usarmos”.

Naquele mesmo dia, um funcionário da Prime encaminhou ao banqueiro o áudio em que Faria acertava o roteiro: “A gente vai amanhã lá na fazenda do Toffoli, ali na fronteira com, nessa coordenada aí, é Paraná com São Paulo”. Ao tratar da cobrança, o funcionário informou que Faria mencionara um acerto de contas com Vorcaro. O banqueiro autorizou: “Pode colocar pra mim.”

Para a Polícia Federal, elementos técnicos e geográficos apontam que a “fazenda do Toffoli” mencionada por Faria era o resort Tayayá, em Ribeirão Claro, na divisa entre os dois estados.




Em nota divulgada antes da publicação desta reportagem, o gabinete de Dias Toffoli afirmou que ele “jamais teve qualquer relação de amizade e muito menos amizade íntima” com Daniel Vorcaro e negou ter recebido qualquer valor do banqueiro ou de seu cunhado. Toffoli repete que “jamais teve relação de amizade ou intimidade com Daniel Vorcaro”. E completa dizendo que “sua participação no referido evento de Londres [aquele da degustação de Macallan] se deu a convite do colega de Corte Ministro Alexandre de Moraes”.

*

Infografia: Pedro Moro


Postagens mais visitadas deste blog

Jorge Messias

"MORTE DA INFÂNCIA"