Escândalos, misoginia e racismo: quem é o enviado de Trump para o Brasil

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Jamil Chade

Escândalos, misoginia e racismo: quem é o enviado de Trump para o Brasil


Darren Beattie coleciona polêmicas e é tido como um dos arquitetos de ações contra o Brasil
24/04/2026 | 05h00 

Flertes com o racismo, supremacismo branco, com misoginia e repleto de escândalos. A relação do governo de Donald Trump com o Brasil ocorre por meio das mãos de um personagem que acumula polêmicas e atitudes contra o governo de Luiz Inácio Lula da Silva.

Darren Beattie foi escolhido no começo do ano para liderar os contatos entre os dois países e, no mês passado, mentiu para tentar conseguir um visto ao Brasil. O governo Lula acabou revogando sua autorização, depois de ser revelado que ele planejava encontrar com Jair Bolsonaro na prisão, apesar de nunca ter dito isso no planejamento da missão.

Esse não foi seu primeiro caso de saia-justa em sua carreira. No primeiro mandato de Trump, Beattie era responsável por escrever os discursos do presidente. Mas, em 2018, uma reportagem da CNN revelou que ele havia participado de uma conferência liderada por nacionalistas brancos.

A revelação levou o governo a demiti-lo. Naquele momento, Beattie se defendeu, alegando que seu discurso não tinha nada controverso e que havia apenas um tom acadêmico.

ICL Notícias teve acesso a seu texto de 2018, no qual o polêmico representante de Trump chega a falar também sobre o Brasil.

Num dos trechos no qual ele avalia a “intelectualidade de direita”, Beattie traça paralelos com o marxismo e a situação no Brasil.

“Enquanto os marxistas culturais podem ter se ressentido da burguesia por esta dificultar a progressão para uma utopia marxista, e da classe trabalhadora por não ter se mobilizado universalmente contra a burguesia como era esperado e previsto pelos marxistas clássicos, os marxistas corporativos se ressentem da burguesia por impedir a progressão natural em direção a um sistema como o do Brasil, no qual uma elite rica, isolada e cada vez menor domina hordas de hilotas facilmente controláveis. O Brasil é a nova utopia marxista para os marxistas corporativos, se me permitem o termo, embora ‘utopia’ possa ser um termo inadequado dada a clara plausibilidade dessa eventualidade”.

Fora do governo, ele criou sua própria empresa de comunicação, a Revolver News. Ela ficaria conhecida por difundir mentiras e teorias conspiratórias. Uma das teses divulgadas pelo site era de que os ataques contra o Capitólio em 6 de Janeiro de 2021 foram, de fato, realizados por agentes federais.

O enviado não disfarçava sua satisfação com a invasão. “O homem esquecido fala”, escreveu Beattie nas redes sociais, segundo levantamento da CNN. “O FBI deveria se ajoelhar em sinal de respeito aos manifestantes do MAGA”. “Esta revolução colorida é vermelha, branca e azul”, completou.

Beattie ainda atacou deputados, acadêmicos e grupos do movimento negro, dizendo que eles deveriam se “ajoelhar em sinal de respeito ao MAGA”. “Eles precisam aprender o seu lugar”, disse.

Darren Beattie teve visita a Bolsonaro aprovada pelo STF mas cumpre agenda no Brasil sem agenda com o Itamaraty
Darren Beattie teve visita a Bolsonaro aprovada pelo STF mas cumpre agenda no Brasil sem agenda com o Itamaraty. Foto: The White House/ Divulgação

Camiseta conspiracionista

No site da Revolver News, a empresa vende itens com frases conspiracionistas. Uma camiseta oferecida por 32 dólares, por exemplo, traz o slogan: “É ok negar (a eleição de) 2020”, numa referência à tese de que Biden jamais teria vencido de fato o pleito daquele ano contra Trump.

Apesar de sua demissão inicial, ele encontraria de novo seu caminho para dentro da administração Trump. O republicano nomeou Beattie para a Comissão dos EUA para a Preservação do Patrimônio Americano no Exterior. Com a chegada de Joe Biden ao poder, em 2022, ele perdeu seu cargo.

As polêmicas não pararam. Nas redes sociais, ele demonstrou a dimensão de sua misoginia, aliada ao racismo. Em um certo momento, ele escreveu:

“Homens brancos competentes devem estar no comando se você quiser que as coisas funcionem. Infelizmente, toda a nossa ideologia nacional se baseia em mimar os sentimentos de mulheres e minorias e em desmoralizar homens brancos competentes.”

A aliança entre misoginia e racismo também ficou evidenciada quando ele decidiu atacar a cantora Taylor Swift. Ela havia criticado a criação de um monumento em Tennessee que homenagearia um dos primeiros líderes do Ku Klux Klan.

A resposta de Beattie foi enfática.

“O fato de celebridades serem obrigadas a se rebaixarem com tais declarações é, de certa forma, ainda mais humilhante do que os favores físicos que são obrigadas a prestar a seus produtores”, escreveu ele.

O desprezo por países pobres também ficou evidenciado quando ele aplaudiu a declaração de Trump sobre “os países de merda”. Naquele momento, o presidente estava criticando a imigração de locais extremamente pobres.

Beattie não hesitou: “‘Países de merda’ foi o ponto alto da presidência de Trump”, disse.

Com a volta do republicano ao poder, Beattie foi recompensado e ganhou o prestigioso cargo de Subsecretário de Estado para Diplomacia Pública e Assuntos Públicos. Entre suas missões estava a de desenhar a mensagem do governo Trump ao mundo.

Agora, ele assumiu o controle da agenda política entre o Brasil e os EUA. Mas basta ler seu próprio site, o Revolver News, para ter uma dimensão do que ele pensa sobre o país. O governo brasileiro é chamado de “regime” e, em textos que não são assinados por ninguém, Beattie é apresentado como a pessoa que orquestrou as sanções contra Alexandre de Moraes e o tarifaço contra o país.

Num artigo de 21 de julho de 2025, o site diz:

O presidente Trump e sua equipe acabaram de tomar medidas drásticas (contra o Brasil). E não se trata apenas de simbolismo; é uma punição real, com consequências de fato. Graças ao trabalho de Darren Beattie, do Revolver, e do Secretário de Estado Marco Rubio, o governo dos EUA tomou medidas concretas contra o regime de censura brasileiro, e está atingindo-os onde mais dói.

Em outro trecho, o site constata:

Neste momento, o Brasil nem sequer se assemelha a um país livre. Está se transformando em uma Coreia do Norte 2.0, com um regime de censura completo, guerra jurídica política e um juiz lunático comandando toda a operação como um fantoche stalinista.

Beattie, curiosamente, é alvo de um agradecimento por parte de seu próprio site:

As tarifas (contra o Brasil) são reais. A mensagem é clara e inequívoca: se você atacar cidadãos americanos, censurar discursos que contrariam seu regime ou se ousar usar a lei como arma para esmagar a oposição populista, você pagará.

E devemos agradecer a Marco Rubio e Darren Beattie por isso.

Isso não se trata apenas de Bolsonaro. Sim, o Brasil está em uma espiral descendente, mas a questão é maior do que isso. Trata-se de traçar uma linha na areia para que o mundo inteiro veja. Rubio e Beattie acabaram de usar o martelo. E parece que isso é só o começo.

Num dos textos, o site ainda comemora quando Beattie foi nomeado para o cargo de enviado ao Brasil: “Ele é o homem certo para o emprego”.

Jamil Chade

Jamil Chade

Cruzando fronteiras com refugiados, testemunhando crimes contra a humanidade, viajando com papas ou cobrindo cúpulas diplomáticas, Jamil Chade percorreu mais de 70 países. Com seu escritório na sede da ONU em Genebra, ele foi eleito o segundo jornalista mais admirado do Brasil em 2025. Chade foi indicado 4 vezes como finalista do prêmio Jabuti. Ele é embaixador do Instituto Adus, membro do conselho do Instituto Vladimir Herzog e foi um dos pesquisadores da Comissão Nacional da Verdade.

https://iclnoticias.com.br/escandalos-misoginia-e-racismo-enviado-trump/

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