Ameaça tarifária de Trump pode fortalecer Lula, avalia analista da Bloomberg
Ameaça tarifária de Trump pode fortalecer Lula, avalia analista da Bloomberg
Em artigo intitulado “Ameaça de Trump com tarifas dá impulso político a Lula”, o analista Juan Pablo Spinetto, colunista da Bloomberg, avalia que a recente intervenção do ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, na política brasileira — especialmente a ameaça de impor tarifas de 50% sobre produtos do Brasil — pode acabar fortalecendo o presidente Lula em vez de prejudicá-lo.
Na última quarta-feira (1º), Trump anunciou a medida que começaria a valer em agosto, relacionando as tarifas às dificuldades jurídicas enfrentadas pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, aliado e amigo do presidente norte-americano. Bolsonaro é investigado por tentativa de golpe após perder as eleições de 2022, e Trump criticou duramente o processo, acusando o Brasil de “ataques insidiosos à democracia”.

Lula critica Eduardo Bolsonaro (Foto: Divulgação Casa Branca)
Os Estados Unidos terem um superávit comercial com o Brasil — ou seja, exportam mais para o país do que importam — e por isso a ação de Trump é vista como uma intromissão direta nas questões políticas e econômicas brasileiras, a 15 meses da próxima eleição presidencial.
O especialista destaca que o gesto pode ser interpretado como uma interferência estrangeira, o que tende a unir a opinião pública brasileira em defesa do governo Lula, fortalecendo sua base política justamente num momento em que o presidente busca reverter quedas em sua popularidade.
“Ao se envolver no caso de Bolsonaro, Trump acaba prejudicando inadvertidamente as melhores chances da direita de derrotar Lula nas eleições, desviando o foco da organização de uma campanha presidencial sólida”, diz trecho do artigo.
“Os apelos desesperados de Bolsonaro para que Trump o socorra representam uma tentativa de abrir caminho para sua candidatura no próximo ano — uma possibilidade que ainda parece muito remota”, completa.
Além disso, a disputa que Lula trava com o Congresso e a escalada da campanha eleitoral criam um cenário em que o “conflito” com os Estados Unidos pode ser explorado politicamente pelo presidente, que costuma culpar Washington pelos problemas do país.
Impacto negativo: Tarcísio x Lula
No campo político, o impacto negativo das medidas de Trump, segundo o colunista, podem recair mais sobre aliados de Bolsonaro, como o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), que tenta consolidar sua candidatura presidencial. A crise causada pela ameaça americana pode desviar o foco da oposição e fragmentar a direita.

Spinetto lembra ainda que a imposição das tarifas, caso seja efetivada, deve afetar a economia brasileira, embora o impacto direto no PIB (Produto Interno Bruto) não deva ultrapassar 0,4%. Mesmo assim, a medida pode gerar retaliações e prejudicar produtores locais, tornando Bolsonaro responsável por uma crise que ele próprio não consegue controlar.
“Essas são apenas as primeiras investidas de uma série que promete intensificar o confronto entre a Casa Branca e o Brasil — e resta esperar para ver como Trump reagirá se, e quando, Bolsonaro for efetivamente preso”, diz outro trecho do artigo.
“Os Estados Unidos deveriam avaliar cuidadosamente os custos e benefícios dessa abordagem desajeitada: muitas vezes, a estratégia mais inteligente para Washington avançar seus interesses é simplesmente recuar, permitindo que os fatos se desenrolem naturalmente e focando na diplomacia discreta, em vez de arriscar uma reação imprevisível”, complementa.
O analista conclui que a estratégia de Trump pode gerar uma reação contrária à esperada, fortalecendo Lula e complicando ainda mais o cenário político brasileiro às vésperas das eleições de 2026.
