Instituto Conhecimento Liberta - “Vorcaro era cobrado por Flávio, que era cobrado por Peixe”
“João amava Teresa que amava Raimundo, que amava Maria, que amava Joaquim, que amava Lili...” Se Drummond atualizasse a “Quadrilha”, os versinhos hoje seriam “Vorcaro era cobrado por Flávio, que era cobrado por Peixe”.
A reportagem de Breno Pires, na piauí, expõe a intimidade entre o gabinete de Flávio Bolsonaro e Robson Calixto Fonseca, o “Peixe”, apontado como elo entre os mandantes e os executores do assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes. Mensagens mostram pedidos de ajuda ao “nosso senador”, emenda de R$ 200 mil transferida para entidade em área de milícia, convites, camarotes e trânsito político. Segundo a PF, o contato do gabinete aparecia no celular de Peixe como “Fafa Flávio Bolsonaro”.
O episódio não surge no vazio. Flávio já homenageou Adriano da Nóbrega, ex-capitão do Bope ligado à milícia, e empregou sua mãe e ex-mulher no gabinete, no período do esquema das rachadinhas operado por Fabrício Queiroz.
A contradição é gritante: enquanto cobra dos EUA que PCC e Comando Vermelho sejam tratados como terroristas, Flávio convive politicamente com personagens ligados à milícia do Rio.
Ao mesmo tempo, a PF investiga os R$ 134 milhões pedidos por Flávio a Daniel Vorcaro, o bandido-Master, sob a justificativa de financiar o filme Dark Horse, e apura se houve apoio político, pagamento por serviços ou outro destino para os recursos.
Não deixa de ser desconcertante que tanto Vorcaro quanto Peixe vissem no senador um amigo, tornando Flávio Bolsonaro um elo entre os dois universos do crime no Brasil: o que toma uísque e fuma charuto caríssimos em rega-bofes astronáuticos e o que porta fuzil, cobra pelo gatonet e pratica extorsão. E o primeiro, mais cafona, costuma ser muito mais caro ao país.